Ciceronianus e/ou Christianus? ‘Onde estiver o teu tesouro, aí está também o teu coração’ (cont.). A cristianização do eremitismo pagão: o microcosmo monástico e a configuração da sociedade cristã
7 Outubro 2021, 15:30 • Rodrigo Furtado
1. Jerónimo e as ambiguidades de um mundo que está a aprender.
a. o círculo feminino de Jerónimo.
b. A tradução da Vulgata.
c. Ciceronianus, non Christianus
Jerónimo, Epístola XXII a Eustóquio, 30: ‘Há já muitos anos, embora tivesse, por causa do Reino dos Céus, cortado todas as relações com a minha casa, os meus pais, irmã, parentes e, o que é mais penoso do que isto, com o hábito dos lautos banquetes [...], não podia passar sem a biblioteca que coligira para mim, em Roma, com grande zelo e trabalho. Assim eu, infeliz, antes de ler Cícero, jejuava. Depois das ininterruptas vigílias nocturnas [...], tomava Plauto nas minhas mãos. Se porventura, caindo em mim, começava a ler um profeta, a linguagem rude horrorizava-me [...].
Quase a meio da Quaresma, uma febre, infundida nas minhas entranhas mais recônditas, invadiu o meu corpo esgotado e, sem qualquer descanso [...], devorou os meus infelizes membros ao ponto de eu mal permanecer preso aos meus ossos. [...] De repente, arrebatado em espírito, sou arrastado até ao tribunal do Juiz, onde era tanta a luz e tanto o brilho oriundos do esplendor dos que se encontravam de pé ao meu redor, que, lançado por terra, não ousava olhar para cima. Interrogado acerca da minha condição, respondi que era Cristão. Mas aquele que presidia disse: «Mentes. És Ciceroniano, não Cristão; «onde estiver o teu tesouro, aí está também o teu coração» [Mat. 6, 21].
Calei-me de imediato e, entre vergastadas – efectivamente, tinha ordenado que eu fosse flagelado – era ainda mais torturado pelo fogo da minha consciência, reflectindo para comigo naquele versículo, ‘no inferno porém, quem te louvará?’ [Ps. 6, 6b]. Comecei então a gritar e a dizer entre lamentos: ‘Tem piedade de mim, Senhor, tem piedade de mim’ [Ps. 56, 2]. [...] Fui libertado, voltei à superfície e, perante a admiração de todos, abro os olhos, inundados por uma tamanha chuva de lágrimas que convenciam da minha dor os incrédulos. [...] A partir de então li os livros divinos com um empenho maior do que aquele com que antes tinha lido os livros dos mortais.
2. A vitória do Cristianismo
a. As dificuldades de implementação.
b. a proibição aos cristãos de participarem nos ritos e sacrifícios cívicos (321 d.C.);
c. Edicto de Constante (ou Constâncio II) (341): cesset superstitio, sacrificiorum aboleatur insania/cesse a superstição e que a insânia dos sacríficos seja abolida (cod. Theod. 16.10.2): a proibição dos rituais da religio.
d. Notícias esporádicas de conflito; mas ausência de uma política consequente até à época de Teodósio; mesmo depois, não há uma perseguição massiva;
e. Teodósio e o edicto de Tessalónica (380).
f. Teodósio e o edicto de 391: a ilegalidade dos templos pagãos.
i. A extinção do fogo do Templo de Vesta e a proibição das Vestais;
ii. A proibição da religião familiar;
iii. O abandono/destruição dos templos?
3. As destruições:
Gália: 2,4% templos destruídos;
Norte de África: apenas destruições em Cirene;
Ásia Menor: apenas um exemplo de destruição;
Grécia: apenas um exemplo de destruição (pelos Godos de Alarico);
Itália: apenas um exemplo de destruição;
Britânia: três exemplos de destruição;
Egipto: sete exemplos de destruição;
Síria-Palestina: vinte e um exemplos de destruição
TOTAL: 43 destruições
A cristianização do eremitismo pagão:
o microcosmo monástico e a configuração da sociedade cristã
- A filosofia pagã dos séculos I-IV d.C.: filosofia e modo de vida.
- Pitagóricos; Estóicos; Neo-platónicos: a contemplação do Uno e a fuga ao mundo distractivo;
- Ataraxia (tranquilidade); ascetismo (ἄσκησις: treino, exercício do gymnasium); mortificação; purificação; contemplação;
- A fuga à cidade; a fuga à política; a fuga ao artifício; a fuga ao mundo material; o eremitismo (ἐρημίτης: o que vive no deserto)/anacoretismo (ἀνακορέω: retirar-se) pagãos.
2. Antão (ca. 251-356).
a. o controlo de si tão caro aos filósofos: o deserto como o lugar da luta contra as tentações; o controlo do corpo e das paixões;
b. a atracção: os seguidores do deserto – discipulado, peregrinações e aldeamentos.
3. O anacoretismo.
a. A expansão do modelo de Antão e as comunidades de anacoretas: Pacómio (†348) e a ‘vida comunitária’: o nascimento do cenobitismo.
b. Jerónimo e o ascetismo em Roma e na Palestina.
c. O monaquismo episcopal e os precedentes das comunidades de canónigos regulares.
i. Martinho de Tours; Ambrósio de Milão; Agostinho de Hipona; Isidoro de Sevilha;
4. A partição do espaço humano: a pureza como critério.
4.1 Jerónimo (ca. 347-420).
a. Virgens; continentes; casados.
b. Ausência de critério económico, sociológico ou funcional: oposição espírito/carne. O ascetismo de Jerónimo e a concepção monástica do mundo.
5. A partição do espaço humano: a sociedade cristã.
5.1 Gregório Magno (ca. 540-604): Bispos; monges; casados: a totalidade da ecclesia
6. A partição do espaço humano: a sociedade móvel universal.
6.1 Ps. Dionísio Areopagita (s. VI).
a. Concepção da sociedade terrestre que duplica a sociedade celeste de forma perfeita e rigorosa.
b. Dizer hierarquia é dizer uma ordenação perfeitamente santa: Por isso, toda a ordenação/hierarquia é trenária – submetida ao mesmo princípio que preside à constituição da Santíssima Trindade!
c. Sociedade Celeste: 3 tríades
Serafins Domínios Principados
Querubins Virtudes Arcanjos
Tronos Potestades Anjos
d. Sociedade Humana: 2 tríades (porque ainda imperfeita)
Bispos Monges
Sacerdotes Penitentes
Diáconos Fiéis
e. Concepção Ascensional e de Continuidade: pode-se partir do ponto mais baixo e atingir o ponto mais alto da Sociedade Celeste. Não há ruptura entre as duas sociedades: contacto directo entre os Bispos e os anjos.