Odete (2005), João Pedro Rodrigues

23 Maio 2018, 16:00 José Bértolo

Início do visionamento de Odete (2005), de João Pedro Rodrigues: enquadramento do filme no contexto das obras modernas, de matriz clássica, analisadas na segunda parte do programa; aspectos formais (cinema clássico, o género do melodrama) e aspectos conteudísticos (história de fantasmas, possessão, amour fou, a porosidade entre a vida e a morte); análise pormenorizada da primeira sequência ( incipit): a imagem matricial, a importância simbólica do beijo, a imagem abstracta ligada à dimensão conceptual do filme, o trabalho visual sobre o anel, os votos de casamento enquanto primeira instância de algo falso que possui um grau de verdade; Moon River enquanto música do casal, elemento intertextual ( Breakfast at Tiffany's) e figura do filme; a promessa de uma prova de amor, e Odete enquanto concretização dessa prova de amor; o acidente fora de campo; pietà; relação intertextual com Ghost (1990, Jerry Zucker), do qual se visionou e analisou uma sequência citada por Rodrigues no seu filme; a incapacidade de Pedro de dizer "as últimas palavras": falência da linguagem e abertura do filme a um novo regime de eloquência; análise de movimentos de câmara (efeito de quiasmo entre os travellings inicial e final da sequência); o anel como figura do filme (1. a nível narrativo: o filme acompanhará a viagem do anel; 2. a nível simbólico: símbolo da união de Pedro e Rui; 3. a nível formal: a circularidade do anel é replicada pela estrutura do filme, que visa replicar no final a sequência inicial).

Continuação da análise do filme: a utilização de "Both Sides Now", de Joni Mitchell (versão de Andy Williams), na banda sonora: a confluência de diversos "dois lados"; Odete como o filme resultante de duas histórias distintas (a de Pedro e Rui, e a de Odete); a problemática do título e o protagonismo de Odete; a caracterização de Odete como pessoa "oca" (infantil, sugestionável, carente, histérica), sem dimensão psicológica, e, portanto, receptível à possessão; a cena do autocarro: sobreimpressão e fantasma, metáforas visuais de espectralização, desmaterialização, perda de inteireza.