Exercício 2

10 Novembro 2017, 10:00 Adriana Veríssimo Serrão

Textos de trabalho distribuídos:

Epicuro, Carta a Meneceu (temas: felicidade; morte).

Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes (selecção), (temas: felicidade; moralidade).

Nietzsche, Fragmentos Póstumos (selecção), (tema: conhecimento de si).

 

 

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Kant,  Antropologia numa Abordagem Pragmática, publicada em 1798.

 

Prefácio

[…] “Contudo, a todas as tentativas de alcançar uma tal ciência bem fundamentada opõem‑se consideráveis dificuldades que pertencem à própria natureza humana:

1. O homem que nota que o observam e o tentam examinar parecerá em­­­­ba­raçado (in­­­como­dado) e, nesse caso, não pode mostrar‑se tal como é; ou então dis­simula‑se, e com isso não quer ser conhecido tal como é.

2. Mas se quiser examinar‑se a si mesmo, sobretudo no que diz respeito ao seu es­­tado em situação de afecção, chega a uma situação crítica que ha­bi­tualmente não per­­mite nenhuma dis­simu­lação, a saber: quando os móbiles estão em acção, ele não se ob­serva, e quando se observa, os móbi­les são neutralizados.

3. Quando são duradouras, as circunstâncias de lugar e de tempo provocam há­bi­tos, que, como se costuma dizer, são uma segunda natureza e dificultam o juízo do ho­mem sobre si mesmo, sobre o que deve pensar de si, mas mais ainda sobre o conceito que deve fazer de um outro homem com quem está em re­lação; com efeito, a alteração da situação em que o homem está colocado pelo seu destino ou que ele, como aven­tu­reiro, também coloca a si mesmo, torna muito difícil à Antropo­logia elevar‑se ao estatuto de uma ciência estrita.

Por fim, existem sem dúvida, não fontes, mas meios auxiliares para a An­tro­po­logia: história universal, biografias, e mesmo peças de teatro e romances. Pois, se bem que aos últimos não subjaza propriamente experiência e verdade, mas apenas seja per­miti­do apresentar aqui efabulação e exagero dos caracteres e situações em que os ho­mens são colocados, à semelhança de imagens oníricas, e portanto pareçam não trazer nada para o conhecimento do homem, aqueles caracteres, tal como fo­ram es­­bo­çados por um Richardson ou um Molière, tiveram de ser extraídos nos seus traços fun­da­mentais da observação do que o homem realmente faz e deixa fazer; porque se é certo que em grau ex­­cedem a natureza humana, na qualidade porém têm de ser coincidentes com ela.

Uma Antropologia em abordagem pragmática, siste­ma­ticamente esboçada e no en­­tanto po­pular (com recurso a exemplos que cada leitor pode além disso des­cobrir), traz consigo uma vanta­gem para o público leitor: graças à exaustividade das rubricas sob as quais pode ser colocada a ob­servação de tal ou tal propriedade humana retirada da prá­tica, ofe­re­ce‑se ao leitor a oportunidade e o desafio de fazer de cada uma delas um tema pr­óprio e de a colocar na secção a que pertence; assim, nesta An­tropologia, os trabalhos re­­partir‑se‑ão por si mesmos entre os amadores deste estudo e serão reunidos num todo exac­tamente pela unidade do plano; deste modo, o desen­volvimento desta ciên­cia de in­te­res­se geral será favorecido e acelerado.”

Trad. port. Adriana Veríssimo Serrão, in A Invenção do “Homem”. Raça, Cultura e História na Alemanha do século XVIII, Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2002, pp. 50-52.