A caminho do rosto e da visibilidade da emoção
9 Março 2018, 14:00 • Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes
MARÇO 6ª FEIRA 6ª Aula
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Rematámos o que ficara por dizer na apresentação de AMOR: SÍNDROMES E SONETOS a cargo da Teresa Ribeiro.
Mais uma vez não fomos bem sucedidos face à possibilidade de escutarmos atentamente o comentário ao capítulo reservado a LUTO: PRESENÇA NA AUSÊNCIA do livro de Giovanni Frazzetto que temos vindo a estudar. A aluna Samara Teixeira sentiu que precisava de mais tempo para se preparar. Concedemos-lhe esse tempo até à próxima aula.
Trouxemos a terreiro Charles Darwin e a sua obra A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. Para além de esta obra ser alvo de múltiplas referências no espaço do volume de Frazzetto, justamente por corresponder a uma primeira sistematização credível e bem defendida das emoções no ser humano e nos animais. Ocupa-se o autor inglês de fundamentação anatómica, fisiológica, biológico, social e cultural, e considera também a exemplificação em várias partes do planeta com o objectivo de provar que as emoções se replicam de igual modo por todo o globo. Para além disso o estudo darwiniano estabelece comparação entre o homem e os animais, se bem que neste domínio as suas convicções nem sempre tenham fundamento.
A este propósito poderíamos referir que Darwin defendia que a expressão das emoções era igual entre os humanos e os animais, se considerarmos a sua teoria evolucionista das espécies. É claro que de entre os animais nem todos poderiam ser considerados nesta tese. Apenas aqueles que, integrando a ordem dos primatas (a partir da organização por espécies, desde 1758, por Carl von Lineu) ou que sendo pequenos mamíferos como ratos e seus aparentados, ou cetáceos como os golfinhos poderiam ser objecto de observação no campo das emoções. Darwin não chegou tão longe.
Pensar que uma lula ou uma amiba tem raiva ou sofre de ansiedade é puro absurdo. No entanto, a lula tem um sistema nervoso e cérebro. E a amiba é um animal constituído por uma só célula, pertencendo à classe dos protozoários, e habita o nosso planeta desde a sua origem. O seu corpo, apenas visível por nós ao microscópico, expande-se e contrai-se para se alimentar e deslocar. O corpo da amiba desencadeia uma coreografia natural de sobrevivência há muitos milhões de anos. A lula também executa uma dança própria no meio aquático onde vive.
Desenho científico do interior de uma lula
Corpo plástico e elástico
O mais curioso é que Darwin considera seu material directo de trabalho a fotografia.
Capítulo a capítulo vamos sendo surpreendidos por exemplares fotográficos do próprio, mas também de colaboradores seus. Que quererá isto dizer em relação às emoções?
Talvez Darwin nos tenha querido dizer que sendo as emoções de todo um corpo, elas se manifestam de forma mais explícita no rosto e sem que as possamos controlar. Também a expressividade corporal pode acompanhar o desencadear de emoções, mas o rosto é a parte do nosso corpo que melhor transmite o que sentimos.
Perante esta evidência pedi aos alunos que preparassem da obra de Darwin quatro capítulos cuja substância poderia criar nexo com o que estudámos de Frazzetto.
Ofereceremos a esta estratégia uma introdução ao estudo do rosto associado às emoções, como ele foi visto e fixado nos sécs. XVIII e XIX e como ele foi visto em contexto de época.
Leituras recomendadas:
- DARWIN, Charles 2006, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, trad. José Miguel Silva, Lisboa: Relógio D’Água, 163-179, 181-200, 217-231, 321-337.
- FRAZZETTO, Giovanni 2014, Como Sentimos – O que a Neurociência nos pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções, Lisboa: Bertrand Editora.
- MENDES, Anabela, Notas para uma sociologia das artes do espectáculo – Reflexão sobre a utilização de parâmetros cognitivos aplicados a públicos de teatro e outras artes in: Maria Helena Serôdio (Dir.), Sinais de Cena 17, Junho de 2012, 60-69.