De como Shakespeare e outros implementam as neurociências

24 Abril 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

ABRIL                                   3ª FEIRA                               16ª Aula

 

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Comentário a várias passagens da entrevista de António Damásio ao Jornal Público, em Novembro de 2017, intitulada: Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre, respondo: na minha área, é Shakespeare.

Considerámos a este propósito, por exemplo, o que distingue sensações de emoções e sentimentos. Pudémos assim revisitar mentalmente o que Frazzetto nos ensinou, talvez também Darwin, mas essencialmente retivemos o que Damásio defende nos capítulos 10, 12 e 13 do seu livro A Estranha Ordem das Coisas.

Em A Estranha Ordem das Coisas (2017), e esta entrevista ajuda a perceber isso muito bem, torna-se claro para os seus leitores que o neurocientista-biólogo-pensador-amante das culturas e das artes defende uma orgânica do planeta baseada na homeostasia, um processo de regulação que se manifesta em todos os seres vivos, independentemente de estes terem ou não mente consciente, subjectividade e sentimentos.

Recordando o que nos diz Damásio sobre a mente cultural humana e as suas capacidades de reaproveitamento de todo um conjunto de «respostas sociais simples» que nos pré-existiram, mas que também ainda nos acompanham (refiro-me aos procedimentos de sobrevivência que fazem parte da vida bacteriana), podemos inferir que a presença de subjectividade, emoções e sentimentos propicia novas e produtivas respostas ao alcance da consciência humana. Em conjunto, a capacidade de um intelecto rico e criador poder ser associada à capacidade de movimento, não só físico mas também mental, é o que determina, no que a nós diz respeito, que façamos bom uso (e este será o que cada um quiser fazer e do que for capaz) desse capital inato e em permanente mobilidade. No capital inato integraremos aprendizagem de vida. É disso que fala Damásio quando afirma que Shakespeare é o mais completo «cientista». Outros haverá como Dostoiévski, Goethe, Molière, Dante e tantos outros que não conhecemos, ou talvez nunca venhamos a conhecer. Na base da afirmação de Damásio estão as singularidades de quem consegue ter uma justa, equilibrada e profunda percepção do comportamento humano, sendo ao mesmo tempo capaz de transmitir cultural e artisticamente essa diversidade. Se é na literatura que Damásio melhor encontra o seu conforto e confronto, não exclui nunca a música, as artes plásticas, o teatro, quando nos fala do cérebro e do seu funcionamento articulado e plástico.

Na condição de espectadores de obra artística, na condição de cidadãos podemos dar bom uso às suas informações científicas reflexivas e recomendações para uma vida em equilíbrio, o que não significa que acreditemos que tudo sempre corre a nosso favor.

 

Foi sugerida a leitura do ensaio de Jacques Rancière, O Espectador Emancipado, com o qual iniciaremos um novo rumo programático.

 

Endereços electrónicos:

 

https://www.publico.pt/2017/11/05/ciencia/entrevista/antonio-damasio-1791116

 

https://www.publico.pt/2017/10/31/ciencia/noticia/sem-educacao-os-homens-vao-matarse-uns-aos-outros-diz-antonio-damasio-1791034

 

Leituras recomendadas:

- RANCIÈRE Jacques 2010, O espectador emancipado, tradução de José Miranda Justo, Lisboa: Orfeu Negro.