De Damásio aos Bijagós

20 Abril 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

 

ABRIL                         6ª FEIRA                                        15ª Aula

 

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Retomámos e concluímos o visionamento do pequeno documentário dedicado à vida actual da etnia Bijagó (Guiné-Bissau).

A discussão a seguir voltou a centrar-se nos capítulos recomendados da obra A Estranha Ordem das Coisas de António Damásio.

Após a captação do viver de um povo não escravizado, que regula a sua sociabilização e organização por um modelo de equilíbrio regulador entre velhos e jovens, que mantém uma filosofia de vida, relação espiritual e religiosa fundadas no animismo, e que ao mesmo tempo luta pela preservação dos bens naturais que a terra e o mar lhe dão, encontrámos neste exemplo a aplicação dos propósitos do pensamento de Damásio como criação cultural e artística fundada na homeostasia.

Detivemo-nos ainda por algum tempo e em diálogo sobre a preparação do corso carnavalesco destas comunidades que, uma vez mais respondem, através dos adereços que constroem, à união entre mar, terra e céu. As suas máscaras esculpidas em madeira referenciam de forma estilizada os animais que lhes dão vida e alimento, associando de modo sincrético realidades, mitos e fantasias.

Estranha nos parece ser esta forma de viver que não conhecíamos e que não associamos aos nossos quotidianos.

Ficámos mais informados do que antes e passámos a estar naquele lugar sem antes lá termos estado. A paisagem, essa, vislumbra-se noutros lugares semelhantes. Desse ponto de vista o documentário poderá ter despertado em nós maravilhamento. As histórias daquelas tabancas (aldeias) e das suas terras de sábio pousio, para que voltem a alimentar os nativos, terras essas que são também o lugar sagrado para ritos de passagem geracional, talvez nos tenha envolvido por algum tempo. A pesca e a apanha de bivalves credenciavam muitos dos ritos entre homens e mulheres. E afinal estava lá tudo o que era preciso saber. O processo de actualização das tradições, a sua repercussão entre gerações, o fenómeno da droga não mencionado mas que caustica o viver daquelas populações como criação de conflito entre autóctones e os que chegam de fora (os de fora são sempre nesta perspectiva, ingénua mas ancestral, os abusadores), conseguiu demonstrar de um modo regulador que a ordem natural das coisas e dos viveres, aquela ordem particular, não tem de ser ameaçada.  O valor homeostático do documentário tornou-se para nós num verdadeiro ensinamento, pese embora a sua perspectiva quase utópica, porque o documentário tem também a função de mostrar uma região que aceita modernizar-se sem pôr em causa valores e princípios antigos.

Deste ponto de vista juntámo-nos a Damásio com um trunfo extra.

 

Na noite de 6ª feira, dia 20 de Abril, a RTP2 passou em hora tardia a longa metragem Kadjike (floresta sagrada) de Sana Na N’Hada (2013).

 

 

Leitura recomendada:

- DAMÁSIO, António 2017, A Estranha Ordem das Coisas. A vida, os sentimentos e as culturas humanas, Lisboa: Temas e Debates/Círculo de Leitores (excertos). Parte III, Capítulo 12, Sobre a actual condição humana, pp. 287-315.

- FERREIRA ALVES, Clara (texto), BARRA, Luís (fotografias), A Vida dos Sentimentos, in: Jornal Expresso, E-A revista do Expresso, 27 de Outubro de 2017, pp. 26-34.

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-11-05-A-vida-dos-sentimentos#gs.OGv9rTg

 

Vídeos visitados:

https://vimeo.com/69622548

https://www.youtube.com/watch?v=udegEFdcZmQ