Duas devastadoras emoções: raiva e culpa
2 Março 2018, 14:00 • Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes
MARÇO 6ª FEIRA 4ª Aula
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Prosseguimos hoje o nosso trabalho com a obra de Giovanni Frazzetto interrogando-nos sobre a sua validade para o nosso exercício de espectação artística. Tomámos consciência de que o benefício alcançado com o estudo desta obra nos permitia apurarmos o modo como se desencadeia em nós as emoções, como elas se desenvolvem e se recolhem, ao mesmo tempo que as podemos acompanhar em idênticos contextos no desempenho de actores que compõem as suas personagens.
Dedicámos comentário à emoção Raiva: Explosões ardentes, a cargo da aluna Catarina Miguel, que se envolveu na exposição sobre o assunto, partindo da sua própria natureza. O nosso diálogo incluiu a apresentação de um caso de crime de um arguido que acompanhei em sessão de tribunal como observadora, e que resultara de um acto extremo de raiva. Discutimos sobre as características deste indivíduo que, sendo um doente mental e tendo agido sob um estado e um grau de perturbação elevados teria de ser punido mas ao mesmo tempo sujeito a acompanhamento médico e farmacológico para toda a vida.
Terminámos o nosso diálogo com a intervenção da aluna Joana Martins a quem coube comentar o capítulo dedicado à Culpa: uma mancha indelével.
Verificámos que esta emoção tem contornos particularmente reparadores em termos sociais e éticos se for entendida como a capacidade de, a partir do erro, sermos capazes de nos melhorarmos a nós próprios. De certo modo, o mesmo poderíamos dizer em relação à raiva. As duas emoções quando não presentes no nosso organismo sob forma extrema permitem-nos um gesto e uma atitude de cooperação pela aprendizagem que nos podem tornar melhores pessoas. Este é por exemplo um campo referencial em muitas peças e teatro desde a Antiguidade até aos nossos dias.
Renovei a proposta de criação de um diário de bordo do espectador que terá o propósito de recolher informação relevante sobre o estado físico, mental e emocional de cada um de nós durante o acto de espectação. Este elemento de trabalho existirá como plataforma de aferição pessoal em relação a cada espectáculo (em directo ou diferido), ao mesmo tempo que estabelecerá uma primeira posição para a discussão em aula sobre os objectos visualizados por todos.
Esta sugestão de trabalho pode já aplicar-se ao primeiro espectáculo que iremos ver em conjunto:
Espectáculo aconselhado:
Sacro – efabulações em torno de mapas intensivos de Sara Anjo
Galeria Zé dos Bois, Rua do Século, nº 9, porta 5
Sábado, dia 3 de Março, às 21:30
Leituras recomendadas:
FRAZZETTO, Giovanni 2014, Como Sentimos – O que a Neurociência nos pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções, Lisboa: Bertrand Editora, pp. 15-56; 57-97; 98-137; 176-213.
- MENDES, Anabela, Notas para uma sociologia das artes do espectáculo – Reflexão sobre a utilização de parâmetros cognitivos aplicados a públicos de teatro e outras artes in: Maria Helena Serôdio (dir.), Sinais de Cena 17, Junho de 2012, 60-69.