Fixação sistematizada de rostos e corpos expressando emoções. Rostos como arte muscular.
13 Março 2018, 14:00 • Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes
MARÇO 3ª FEIRA 7ª Aula
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Regressámos uma vez mais a Frazzetto, porque nos ocupámos de um esquema sobre a teoria dos humores presente na p. 171 da obra. Recordámos entretanto o enorme apreço do neurocientista italiano pelo trabalho de Charles Darwin na qualidade de pioneiro no processo associativo entre emoções e comportamentos humanos, mas também relacionando-os com o que expressam os animais, num quadro representacional dedicado ao que o rosto mostra. Apesar de em Darwin termos o cientista da sistematização comportamental que se ocupa da criação de uma espécie de catálogo visual do que sentimos e como o sentimos, este campo de actividade associado a estudos fisionómicos tem uma longa história que começa, de facto, nas pinturas rupestres – o desejo de fixar a forma humana e animal em actividade própria.
Sem nos querermos deter num processo histórico de evolução, optámos por nos apropriarmos, a título exemplificativo, de realizações plásticas anteriores a Darwin, ou suas contemporâneas, ainda associadas ao desenho, à pintura e à gravura que reflectem a preocupação de criar uma consciência do corpo e do rosto na perspectiva de tipologias. Em termos de meio, Darwin beneficia da descoberta da fotografia, que lhe permite, e aos seus colaboradores, fazer registo de expressões quase momentâneas.
Escolhemos para essa demonstração dois artistas plásticos, um suíço, Johann Caspar Lavater (1741-1801) e um alemão, Carl Spitzweg (1808-1885) que referenciam um pouco do espírito da história de arte europeia sobre a elaboração de uma ciência-arte a partir dos estudos fisionómicos realizados ao longo do séc. XVIII e XIX. Especificamente Lavater dedica-se à observação e registo de manifestações emocionais e de carácter que deverão ser interpretadas à luz dos traços do rosto e postura corporal. Neste campo, os seus estudos plásticos e ensaísticos procuram contribuir para uma reflexão sobre como alcançar melhoramento em cada ser humano a partir das suas características fisiológicas e morais. O Homem moralmente elevado, a que Lavater atribui a condição de génio, será aquele que adquire uma consciência de si próprio pelas partes e pelo todo: «(…) é próprio da natureza do génio, tal como da do íman: atrair com um dos polos, repelir com o outro. E no entanto, há características determinadas e indetermináveis, não aprendíveis e não ensináveis, de vários tipos de génios […]» (Lavater, Fragmentos Fisionómicos, para a promoção do conhecimento humano e da filantropia, Leipzig/Winterthur, 1775-1778, Vol. 4, 1ª Secção, 10º Fragmento)
Prancha 1 – Os quatro humores: fleumático, colérico, sanguíneo, melancólico
Prancha 2 - Parecenças
Prancha 3 – Ansiedade, nervosismo, irritação, raiva, empatia (simpatia)
Prancha 4 – Surpresa, fúria, incompreensão
As propostas plásticas de Carl Spitzweg fornecem-nos um outro género de caracterização, dentro de uma perspectiva romântica, e mais tarde Biedemeier (conservadorismo burguês tardio) da sua pintura, associada ao exercício da arte, da ciência, da literatura com o objectivo de comentar uma profissão através do modo como ela adequa um comportamento social a um estatuto e a características específicas do próprio retratado. Em Spitzweg há sempre a presença de uma veia satírica no modo como ele individualiza e colectiviza o comportamento humano.
Carl Spitzweg, O pobre poeta, 1839, óleo sobre tela, 36 X 45 cm, Neue Pinakothek, Viena de Áustria, Áustria
Carl Spitzweg, O rato de biblioteca, óleo sobre tela, 49,5 X 26,8 cm, museu Georg Schäfer, Schweinfurt, Alemanha, 1850
Carl Spitzweg, O amante de cactos, c. 1856, óleo sobre tela, 32,4 X 54,2 cm, colecção privada
Carl Spitzweg, O geólogo, c. 1860, óleo sobre tela, 44 X 34,5 cm, Von der Heydt Museum, Wuppertal, Alemanha
Nas imagens seleccionadas encontramos um posicionamento dos corpos e do rosto concentracional em função da actividade desempenhada. À excepção do que acontece com O pobre poeta, cuja acção está dependente de vários factores, os outros profissionais/amadores deslizam do geral para o particular, criando à sua volta um mundo próprio que lhes atribui uma certa excentricidade, por vezes mesmo traços de hipocondria, como é o caso do poeta retratado.
Através da sua pintura e em particular do modo como designa as suas telas, este artista cria uma tipologia comportamental de profissões que valem menos pelo que delas nos dizem, e mais pelo observamos sobre o observar das personagens criadas. A observação psicológica das figuras é quase sempre parodística.
Pedi aos alunos que procurassem entre Frazzetto e Darwin, semelhanças e diferenças no modo de tratarem as emoções. Bastarão pequenas exemplificações a propósito de uma ou outra emoção. Seleccionámos da obra de Darwin os capítulos VII, VIII, X e XIV.
Terminámos a nossa aula com um curto visionamento do Youtube da arte compósita Kathakali, representação originária do Estado do Kerala na Índia.
Intencionalmente focámos a nossa atenção no trabalho artístico de controlo dos músculos no rosto dos bailarinos. Poderemos voltar a esta arte que, de acordo com Richard Wagner, poderíamos considerar uma obra de arte total.
Leituras recomendadas
DARWIN, Charles 2006, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, trad. José Miguel Silva, Lisboa: Relógio D’Água.
FRAZZETTO, Giovanni 2014, Como Sentimos – O que a Neurociência pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções, Lisboa: Bertrand Editora.
DVD que gostaríamos de ter visto mas que não nos deu essa oportunidade.:
MARGI, Thiruvananthapuram (agrupamento) 2008, Kathakali, DVD, Legendas em inglês, 1h 29 min.