Nós e as abelhas
13 Abril 2018, 14:00 • Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes
ABRIL 6ª FEIRA 13ª Aula
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Concluímos o visionamento do making of de Shirin designado por Taste of Shirin. Porque terá Hamideh Razavi dado este título ao trabalho de bastidores do filme de Kiarostami? Qual o sabor do que estivera a ser preparado? A que sabiam as diferentes cenas (visuais, auditivas, com acertos de luz, desenhadas sonoramente por objectos inusitados, cantadas e ditas, portadoras de silêncio) que iam nascendo em estúdio, uma após outra e de forma cuidadosa, com carinho e labor, ajustando-se entre si, fazendo prever a montagem? Parecia estarmos longe do prato principal e, afinal, já o tinhamos provado.
Assim fomos deixando os rostos de Darwin e os de Lavater, as posturas de profissão de Spitzweg, as emoções de Frazzetto, os treinamentos musculares do Kathakali, Kiarostami e o seu filme especular.
Passámos a dedicar-nos ao comentário de uma entrevista feita por Clara Ferreira Alves a António Damásio e à sua muito discreta mulher, a neurocientista Hanna Damásio, em Outubro de 2017.
Teve esta entrevista o propósito de nos proporcionar ligação ao pensamento e percurso de vida dos Damásio em prol da investigação que prosseguem desde há várias décadas sobre o cérebro. De Damásio pudemos ler, por exemplo, que sentimentos e emoções não são a mesma coisa: «Não, sentimentos são experiências de emoções. E as emoções são movimentos, motions. Emoções são o movimento-base.» (29) Estarão Frazzetto e Damásio de acordo?
Aportámos a um outro campo essencial na concepção damasiana actual, mas já esboçada em obras anteriores, como A Consciência de Si ou em Ao Encontro de Espinosa e que consiste na valorização do conceito de homeostase. Do mais ínfimo ser vivo ao mais mentalmente elaborado – o ser humano – é possível assistir-se a reacções corporais decorrentes da capacidade de movimento. Damásio refere o comportamento das bactérias. A gradação de complexificação dos organismos vivos pressupõe, porém, que a aquisição de capacidade de sentimento só é possível nos seres vivos que possuem sistema nervoso e mente. O tempo que medeia entre o aparecimento da emoção (3,9 mil milhões de anos) e o desenho do sentimento e outros sistemas (100 milhões de anos) (29) permite-nos imaginar muito vagamente o que terá acontecido na Terra antes do nosso tempo.
Para que exista uma cultura é preciso que haja sentimento. Afirma Damásio que a criação de cultura está associada à existência de experiência e à sua incorporação na vida. Outros seres vivos, que não os humanos, desenvolvem modelos culturais que também nós reconhecemos como nossos, por exemplo, o caso das abelhas, formigas, vespas que se organizam em sociedades em que desempenham funções distintas. Particularmente as abelhas e as formigas são insectos laboriosos e organizados que desenvolvem modelos de socialização muito específicos, apesar de não serem alvo de grande alteração ao longo dos tempos. De modo muito consciente, os seres humanos reconhecem nestes animais um conjunto de qualidades e benefícios, estabelecendo com eles ao longo dos tempos relações que se exprimem por uma ética de vida (o modelo social), por uma cultura alimentar farmacológica e de cosmética (o que as abelhas produzem), por uma inspiração artística, por exemplo, filmes como A vida secreta das abelhas (2008) de Gina Prince-Bythewood, ou a nossa famosa Abelha Maia nas suas diferentes versões. Apesar das possibilidades de captação e desenvolvimento da nossa relação com as abelhas, o processo inverso não faz sentido para nós. O que sabemos por enquanto é que não faz. Mas Damásio não descarta a existência de respostas que ainda não conhecemos. O sentimento mantém ainda uma condição de mistério, de propulsor de experiência cultural, associado à consciência, com vista ao estabelecimento da condição homeostática dos viventes, o tal equilíbrio entre as partes e o todo, sendo o todo o que nos excede mas que em nós se manifesta. É para esse horizonte que deveríamos tender. Esse equilíbrio (cada vez mais desequilibrado) pressupõe, segundo Damásio, a conjugação do maior número possível de colaborações interdisciplinares que sejam capazes de ajudar a ler os sentimentos como um essencial fundamento de cultura e de criatividade humanas.
Filme visionado:
KIAROSTAMI, Abbas, Shirin, DVD, 2008, em farsi com legendas em inglês, 91 min., acrescido do making of de Hamideh Razavi, 27 min.
Leitura recomendada:
FERREIRA ALVES, Clara (texto), BARRA, Luís (fotografias), A Vida dos Sentimentos, in: Jornal Expresso, E-A revista do Expresso, 27 de Outubro de 2017, pp. 26-34.
http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-11-05-A-vida-dos-sentimentos#gs.OGv9rTg
- DAMÁSIO, António 2017, A Estranha Ordem das Coisas. A vida, os sentimentos e as culturas humanas, Lisboa: Temas e Debates/Círculo de Leitores (excertos), Parte III, A mente cultural em acção, Capítulo 10, Culturas, pp. 225-263.