Os rostos da arte de Kiarostami

6 Abril 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

ABRIL                         6ª FEIRA                              11ª Aula    

 

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Dedicámos esta e a próxima aula ao visionamento de obra cinematográfica de Abbas Kiarostami. Apreciaremos o filme Shirin, do realizador iraniano falecido em 2016, na perspectiva da espectação do que na verdade não vemos (só o saberemos depois) mas apenas escutamos.

Porque nos interessa este filme se o que vemos são apenas os rostos de quem especta numa sala de cinema? Poderão esses rostos, e apenas eles, criar em nós emoções empáticas? E quem especta nada especta afinal, dedicando-se antes essas espectadoras à recuperação de memórias pessoais de âmbito sentimental. Saberemos mais tarde que a pedido do realizador. Talvez existam para além deste tipo de memórias, outras de que apenas temos o esboço em registo visual que os seus rostos permitem acompanhar e de que as suas mãos nos dão notícia. E tudo isto acontece em função de uma história de amor trágico representada (para nós) em desenho e gravura sobre uma princesa arménia e um príncipe persa. A história que escutamos em fundo, e com uma partitura sonora de acontecimentos encenados como se fosse uma peça radiofónica, transmite a estimulação necessária para que as actrizes se deixem envolver emocionalmente e nós com elas. A experiência é de 3º grau.

A conjugação abrange as histórias pessoais de cada uma dessas espectadoras, bem como a cultura a que pertencem. Porém, ela engloba também a presença de uma actriz ocidental, Isabelle Hupert, que não sendo iraniana, ali poderá estar com o intuito de universalizar os sentimentos despertados por uma frustrada história de amor. O que nos pretende dizer Kiarostami com este seu filme?

O filme interessa-nos pelo modo como esses rostos respondem à direcção de cena e à montagem do realizador, mas também como processo que põe à nossa disposição e durante o tempo de um filme aquilo a que habitualmente não temos acesso: observar comportamentos, movimentos corporais e expressões faciais de outros espectadores, quer seja no cinema, como é o caso, quer seja em outros tipos de espectáculos, sobretudo ao vivo.

Voltamos à expressão particular do rosto no contexto também particular do filme Shirin de Abbas Kiarostami. O espectáculo que contemplamos joga às escondidas com sentimentos e emoções. E nós colaboramos nesse jogo. Só disso teremos verdadeira consciência quando acessarmos ao making of do filme. Até lá exploramos com Kiarostami muitas possibilidades de querermos tornar visível o que é invisível e assim se manterá.

 Em farsi, com legendas em inglês, é-nos contada a epopeia antiga iraniana da princesa Shirin e do seu amado Khosrow e a esta narrativa damos nós corpo através de imaginação despertada por audição. Este é o processo afecto à ideia de peça radiofónica, género dramático de que muito poucos terão memória. Partilhamos assim um mesmo universo com as actrizes presentes na sala de cinema como montagem que se sujeitam ao mesmo desafio que nos é proposto sem que quase nos demos conta disso.

Os rostos que contemplamos não são rostos naturo-artísticos como os que vimos no espectáculo de Kathakali e que requerem longo treino de domínio muscular e aturada concentração. Os rostos que não nos olham nos olhos, porque observam uma história que não vêem mas conhecem, adquirem uma consciência artística sendo afinal naturais.

 

Filme visionado:

KIAROSTAMI, Abbas, Shirin, DVD, 2008, em farsi com legendas em inglês, 91 min