Plasticidade cerebral - Comportamento imitativo e empático - neurónios-espelho

23 Fevereiro 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

FEVEREIRO                        6ª FEIRA                               2ª Aula

 

23

 

Iniciámos a nossa aula com a leitura em voz alta e comentário do posfácio da obra Como Sentimos – O que a Neurociência nos pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções de Giovanni Frazzetto. Nesse curto texto de quatro páginas encontrámos a razão de ser do nosso estudo que, ao orientar-se para fundamentação das Neurociências aplicadas às Humanidades, nos explica que a aprendizagem do funcionamento do nosso cérebro jamais toma o lugar das vivências emocionais que cada um de nós tem ao longo da sua vida, ainda que seja exactamente no cérebro que tudo se processa.

Aquilo a que nos iremos devotar nesta fase diz respeito à nossa capacidade de integrar num discurso aberto a várias áreas do conhecimento aquilo que o particulariza.

Esta estratégia derivada da plasticidade dos tecidos neuronais permite-nos ter actividade variada, simultânea e sob um certo domínio da consciência, reconhecendo-se em determinadas manifestações. Salientei a este propósito um processo com o qual procurei exemplificar a mobilidade do pensamento. Tratou-se do funcionamento de uma específica biblioteca com dinamismo próprio. A descrição da biblioteca de Aby M. Warburg, historiador de arte alemão da primeira metade do séc. XX, designada por Mnemosine, em honra da deusa grega da Memória, foi o modelo prático escolhido para iluminar o pensamento ágil de que fala Frazzetto. Os livros dessa biblioteca existiam nas prateleiras para servir um tema ou assunto, uma época, podendo num momento seguinte ser reorganizados de maneira a estarem disponíveis para nova investigação. Associámos ainda, desta perspectiva, a organização proposta por este historiador de arte para as pranchas de imagens com que trabalhava regularmente, o seu Atlas Mnemosine, e que por ele eram alvo de transbordo e reorganização, criando constelações surpreendentes de imagens para interpretação dentro de um quadro de proximidade e distância. Esse exercício mental associativo operava descobertas e ligações nunca antes tentadas de forma sistemática, quer através das leituras de obras díspares entre si, quer na aturada observação das imagens circulantes de acordo com as áreas em estudo.

Ao valorizarmos diferentes pontos de vista a partir da observação de um objecto, um espectáculo neste caso, estaremos a tornar ecléctico o nosso pensamento e a considerar que a diversidade de posições que fortalece a nossa curiosidade intelectual nos permite encontrar sempre novas posições e distintas conexões.

 

Direccionámos a seguir o nosso interesse para o capítulo 5 do livro de Frazzetto, intitulado Empatia: A verdade escondida e questionámo-nos sobre comportamentos naturais no ser humano e em outras espécies, nomeadamente entre os mamíferos, que pressupõem um relacionamento de proximidade afectiva, a maior parte das vezes relacionados com o fenómeno da imitação, como é o caso da aprendizagem das crianças no andar, no falar, e em todas as manifestações que pressupõem integração e sociabilização.

A propósito da teoria aristotélica sobre a tragédia, recuperámos a Parte IV, § 13 de Poética: «Ao que parece, duas causas, e ambas naturais, geram a poesia. O imitar é congénito no homem (e nisso difere dos outros animais, pois, de todos, é ele o mis imitador e, por imitação, apreende as primeiras noções), e os homens se comprazem no imitado.» (Aristóteles, (7) 2003: 106-107)

O procedimento imitativo está directamente associado ao fenómeno de empatia. Ambos desencadeiam modos de aproximação entre nós e os outros. No caso da empatia comportamo-nos como se pudéssemos ocupar o lugar do Outro, tanto em situações e comportamentos favoráveis como ao contrário.

Em ambos os casos, e entre outros operadores cerebrais, beneficiamos da acção dos chamados neurónios-espelho que no ser humano funcionam em rede, em sistema.

Ainda motivados pelo comportamento empático e tomando em consideração o assunto desenvolvido por Frazzetto em relação à experiência de empatia no espaço cénico, exemplificada pela teoria e prática de Stanislavsky, recordei a oposição estética entre Aristóteles e Brecht:

 

Iniciaremos a próxima aula discutindo cada uma destas tabelas e ainda a propósito de empatia.

Selecionámos os capítulos sobre a culpa e a ansiedade do livro em estudo para reflexão conjunta.

 

Espectáculo aconselhado:

Sacro – efabulações em torno de mapas intensivos de Sara Anjo

Galeria Zé dos Bois, Rua do Século, nº 9, porta 5

Sábado, dia 3 de Março, às 21:30

https://www.viralagenda.com/pt/events/470710/sacro-efabulacoes-em-torno-de-mapas-intensivos-de-sara-anjo

 

Leituras recomendadas:

-ARISTÓTELES, (7) 2003, Poética, tradução, introdução, comentário e apêndices de Eudoro de Sousa, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, pp. 106-107.

- FRAZZETTO, Giovanni 2014, Como Sentimos – O que a Neurociência nos pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções, Lisboa: Bertrand Editora, pp. 293-296, 176-213.

Visionamento aconselhado:

https://en.wikipedia.org/wiki/Aby_Warburg

 

https://warburg.sas.ac.uk/collections/warburg-institute-archive/bilderatlas-mnemosyne/mnemosyne-atlas-october-1929