Um ignorante pode ensinar a outro ignorante o que ele próprio não sabe
4 Maio 2018, 14:00 • Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes
MAIO 6ª FEIRA 18ª Aula
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Estabelecemos um quadro de pressupostos, a partir do ensaio O Espectador Emancipado de Jacques Rancière, com a intenção de esclarecer, por um lado, o que significa para Rancière produzir emancipação intelectual no sujeito como criação de espaço mental próprio em acções individuais e colectivas, exemplificado na história de Joseph Jacotot e dos seus alunos flamengos: «um ignorante podia ensinar a outro ignorante aquilo que ele próprio não sabia.» (Rancière, 2010: 7) Esta intuição, chamemos-lhe assim, tem como base uma experiência real: O modelo de partida deriva de um acto pedagógico e científico, nunca até então treinado nem posto à prova na comunidade docente, desenvolvido por Joseph Jacotot, professor do ensino secundário, ao tempo em Lovaina, quando corria o ano de 1818. Jacotot e os seus alunos empenharam-se em pôr em prática um método de aprendizagem que se baseava em quatro pressupostos: todos os seres humanos possuem a mesma inteligência; todo o ser humano recebeu de Deus a faculdade de ser capaz de se instruir a si próprio; podemos ensinar o que não sabemos; tudo está em tudo.
Por outro lado, Rancière transpõe e adequa a experiência desse exemplo para o modo como se podem relacionar espectador e actor através da representação/apresentação, constituindo esta a mediação (tradução, narração, escuta, criação ou não de empatia) que ocorre no espaço cénico.
A proposta contida neste último pressuposto anuncia o programa estético, pedagógico e político do autor em relação à qualificação do espectador. É seu objectivo que toda e qualquer barreira física, mental, cultural, artística possa ser ultrapassada pelos participantes em acção (quem está em cena e que observa essa cena), apesar de toda e qualquer heterogeneidade que entre eles possa existir. É em nome de um bem comum: a preservação e a implementação de valores, anseios e realizações dentro da própria comunidade que o relacionamento entre as partes deverá ser equidistante. E esta equidistância só pode ser alimentada por produtividade intelectual e afectiva de ambas as partes. Parece simples mas não é. Não existe do ponto de vista de Rancière a supremacia de um plano sobre o outro. Chama o autor a este modelo «um novo palco, um palco de igualdade, no qual performances heterogéneas se traduzem umas nas outras. Porque em todas estas performances trata-se de ligar o que se sabe com o que se ignora;» (Rancière, 2010: 35) O que é exequível, o que é representável e aquilo que parecendo não o ser, tem afinal fundamento.
A adaptação deste ideário ao comportamento intelectual e afectivo do espectador na sua relação com quem faz o espectáculo constitui então o fundamento da atitude emancipatória daí decorrente. Nesta óptica, de que desenvolveremos leitura de algumas páginas da outra obra do pensador francês, O Mestre Ignorante, confrontar-nos-emos com uma proposta estético-filosófica de cariz utopista, ainda que frequentemente aplicada em núcleos sociais restritos e que se presentifica na ligação entre Teatro e Comunidade.
Leitura recomendada:
- RANCIÈRE Jacques 2010, O espectador emancipado, tradução de José Miranda Justo, Lisboa: Orfeu Negro, pp. 7-36.