Oskar Schlemmer e a filosofia do inacamento
17 Novembro 2020, 15:30 • Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes
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AULA ZOOM
Oskar Schlemmer e o inacabamento
O artista plástico Oskar Schlemmer (1888-1943), conhecido pela sua actividade desenvolvida no âmbito do design, da escultura, da pintura, da cenografia e também de figurinos, em Estugarda e Berlim, aceita em 1920, ano do seu casamento com Helena Tutein, o convite que lhe foi endereçado por Walter Gropius para dirigir o atelier de pintura de parede na Escola da Bauhaus. Algum tempo depois Schlemmer assume ainda como Mestre da Forma a tutela dos ateliers de escultura em pedra e em madeira.
Dotado de tantas capacidades artísticas, Oskar Schlemmer é convidado a orientar, entre 1923 e 1929, o atelier que se dedicava às artes de palco e isto na sequência da estreia do seu Ballet Triádico, em 1922, em Estugarda.
O Ballet Triádico tem como derivação um exercício de dança criado para três bailarinos em sequências divertidas que alternam com outras de índole mais séria.
Apelidados por Schlemmer como Figurinos, os artistas em palco na sua modelação corporal adaptavam-se e treinavam a percepção do uso de figurinos excêntricos através dos quais demonstravam a condição plástica desses materiais e suas formas na relação com o espaço cénico.
Era objectivo de Oskar Schlemmer recriar o Teatro a partir da dança e da pantomima, o que tentou frequentemente desenvolver, ainda que não tivesse deixado obra finalizada. O que restou do seu trabalho artístico nesta época foram projectos que puderam ser reconstruídos a partir de informação de arquivo e de carácter muito experimental. Nunca saberemos verdadeiramente qual a dimensão que as suas obras para palco poderiam ter alcançado. De certo modo, as propostas de reconstrução a que iremos assistir neste contexto têm em Oskar Schlemmer o fautor da presença do inacabamento por opção. E isto não significa que não houvesse profissionalismo no trabalho deste artista plástico ou falta de exigência para com os seus intérpretes.
A defesa da ideia de uma obra sempre em progressão estava não só relacionada com o forte experimentalismo das experiências que realizava com os seus bailarinos, dando prioridade à articulação dos mesmos com o espaço e a partir da imaginosa criação de figurinos, como também dependia muito directamente das condições de financiamento dos seus projectos. A crença do artista de que melhores dias viriam, levava-o a sucessivos adiamentos de conclusão de trabalhos na esperança em melhoramentos dos mesmos.
Curiosa e paradoxalmente Oskar Schlemmer não concebia que qualquer dos seus trabalhos não tivesse alcançado uma condição final. O que ele defendia é que cada produção continuava a ter potencialidades para vir ao encontro de mais desenvolvidas expectativas e nesse sentido cada criação na sua forma parcelar ou conjunta mantinha em aberto a sua continuação.
Esta metodologia e este ideário, que aliás estão documentados em inúmeros desenhos, esquissos, maquetes, cadernos que anunciam variações e revisões de trabalhos realizados ou a realizar, associam-se a outras formas de registo que têm sobretudo na correspondência e em textos preparados para as aulas do atelier de artes cénicas da Bauhaus um poderoso arquivo. Estes materiais demonstram e acentuam a condição vanguardista da figura do inacabamento na obra de Schlemmer e a sua assunção como desígnio.
O que teremos oportunidade de acompanhar e em observação em aula serão reconstruções realizadas na década de 60 do século passado por Margareta Hasting (aluna dilecta de Mary Wigman, tal como o foi também Gret Palucca) e que nos mostram dança abstracta sob a égide do concreto, isto é, os corpos dos bailarinos adquirem presença e visibilidade, mas nunca correspondem a uma ideia de realidade a ser imitada. O que acontece é que de forma deliberada a presença humana em cena tem a função de salientar a essência da artificialidade que o bailarino ou bailarinos podem desenvolver relativamente ao espaço em que se inserem e de como este interage com os próprios intérpretes.
Aquilo a que Schlemmer dava prioridade nestas pequenas produções experimentais eram as diversas possibilidades de leitura da “presença do ser humano no espaço”. É também desta perspectiva que em alguns trabalhos do Mestre da Bauhaus podem aparecer marionetas e autómatos com o propósito de codificarem o desenho coreográfico em cena, de modo a afastá-lo da facilidade com que o movimento natural é parte íntegra da condição anatómica e biológica do ser humano. Esta opção que procurava alienar do palco o que caracteriza os indivíduos na sua capacidade de movimento tinha nas máscaras e nos figurinos aliados potenciais que produziam transformação imediata sobre a compreensão naturalista dos rostos e corpos. Schlemmer referia-se aos seus bailarinos como “figuras artísticas” e não como “pessoas que dançam.”
Deste ponto de vista os espectáculos criados por Oskar Schlemmer eram produções que associavam a dança à música e aos figurinos desfamiliarizando a memória do ballet clássico ou a expressividade da dança de época. Em seu lugar assistimos à criação de formas abstractas sem despersonalização dos intérpretes, mas recorrendo a atributos que os transformam na sua plasticidade e natural autonomia.
A proposta de visionamento de Mensch und Kunstfigur (Ser humano e Figura artística), que não é título de coreografia de Oskar Schlemmer, mas antes uma espécie de manual de carácter teórico-prático, contém diversos pequenos trabalhos para palco do artista alemão.
Talvez possamos espreitar algumas experiências coreográficas criadas pelo Mestre: Metal Dance, Space Dance, Form Dance, Gesture Dance (a única coreografia com som humano ainda que distorcido em muitos dos seus momentos), Pole Dance, Hoop Dance, Flat Dance, Game of Bricks, Choir of Masks.
O conjunto destes pequenos apontamentos de dança é, como já referido, uma reconstrução a partir dos materiais deixados por Schlemmer. Objectivamente o que é proposto consiste numa transferência dos vários exemplos de dança para um mundo de cor ou a preto e branco, que transporta em si um imaginário rico através do espaço, objectos, figurinos, máscaras, desenho de luz, música, sonoridades com significado em contexto, tudo agenciado pelos próprios performers. Nos exemplos a visionar o que se procura é criar interpretação muito próxima sobre o inacabamento como ideia estética e que caracterizou o artista. A estranheza das pequenas peças dançadas e coreografadas pontua um universo de época, por vezes reconhecível, mas amplamente aberto para que nos sintamos implicados nos jogos cénicos propostos.
Faremos em aula o visionamento de uma parte do DVD dedicado a Oskar Schlemmer e às suas máscaras. Chamava-se essa pequena produção Dance Masks. E na verdade poderemos ser surpreendidos por um exercício coreográfico de manipulação em espaço negro e corpos invisibilizados pelo negro que punha em destaque diferentes rostos de máscaras em movimentos individualizados e em montagem de grupo que nos podem levar em diferentes direcções como familiarizarmo-nos com a Antiguidade Clássica, representada numa figuração moderna da Tragédia Grega, observarmos a construção de máscaras a três dimensões e de inspiração figurativa (máscara de rosto de criança) ou surpreendermo-nos com caracterização de um tipo social (talvez o ganancioso) associado à velhice como caricatura (nariz e barba excessivos). As restantes máscaras foram produzidas sob a influência dos princípios da Bauhaus para esta área artística. O fenómeno da desconstrução tornou-se evidente na maior parte das figuras geometrizadas e surpreendentes. Que leitura poderemos então fazer desta selecção artística a que teremos acesso?
Para Oskar Schlemmer, a máscara era um elemento primordial da criação dos corpos artísticos, artificiais, que pretendia colocar em cena. A máscara desempenhava as habituais funções a que está ligada desde sempre, e neste caso ela acentuava traços de carácter ou servia a representação do reconhecimento, por exemplo, da idade de inocência, da passagem do tempo, mas igualmente poderia responder por uma leitura política de enquadramento desse imaginário tão produtivo. Neste pequeno conjunto cénico, as máscaras associadas à despersonalização invocam na desconstrução dos seus elementos uma forma de captar uma época conturbada e difícil que se furtava à transformação positiva das relações entre as pessoas. O período da República de Weimar na sua fase final anunciava já muitas incógnitas que chegariam em força com o nacional-socialismo.
Oskar Schlemmer foi um artista com uma enorme consciência política e ainda que a sua arte nem sempre desse a entender essas inquietações, se formos atentos compreenderemos com relativa clareza o tipo de figuras que ele propõe, que tendo uma beleza estética surpreendente, e estando sempre numa relação directa e orgânica com o espaço (este vale tanto como os artistas, suas cores e formas), pré-anunciam a mecanização do mundo, a automatização dos gestos e movimentos que de certo modo hoje conhecemos e reproduzimos.
Será que a conceptualização e a esteticização das obras de Oskar Schlemmer se anunciam como proposta de alternativa ao mundo real? Ou nessa «figuração artística» existe uma denúncia desse mesmo mundo?
Podem assistir na internet a três coreografias de composição de O Ballet Triádico que Oskar Schlemmer concebeu, em 1922, e já dentro da sua leccionação e concepção artística na Bauhaus. Estes três momentos denominaram-se através de cores: amarelo, rosa e preto. A versão a que temos acesso foi reconstruída por Margarete Hasting.
Aguardaremos o visionamento da versão de Gerhard Bohner (1989) em aula futura para nos podermos pronunciar sobre as diferentes concepções destas coreografias, elas mesmas já resultado da recepção da obra original.
Apresentação de algumas ideias centrais relacionadas com o trabalho artístico de Oskar Schlemmer na Bauhaus:
- Importância e influência da arquitectura como arte do espaço e da construção da forma na concepção de palco e na construção coreográfica. Criação do conceito de “arquitectura em mudança”.
- Relação entre máquina e abstracção na procura de um novo e moderno ser humano.
- Concorrência produtiva entre elementos em palco (objectos, materiais, estruturas, maquinarias) e o ser humano, no sentido de estabelecer um melhor conhecimento entre o humano e a técnica. Sujeição de actores e bailarinos ao mecânico como procura de enquadramento de um corpo inabitual.
- Associação da geometria e da estereometria (medição geométrica dos solos) ao estudo do comportamento humano em dança.
- Poeticização do corpo humano através da dança, a partir de uma visão estética e crítica da realidade de época profundamente racionalizada.
- Criação do conceito de Figura artística como resultado da valorização de figurino e máscaras e como extensão e reconfiguração do próprio corpo humano. Questionação sobre novos corpos imaginados e sobre a sua revivência.
Endereços recomendados
https://www.bauhaus100.com/the-bauhaus/people/masters-and-teachers/oskar-schlemmer/
https://monoskop.org/images/a/a7/Gropius_Walter_ed_The_Theater_of_the_Bauhaus.pdf
A gravação premeditada de aulas retira às mesmas a espontaneidade de participação