Notas de Iconologia: os conceitos de Nachleben e Denkraun para Aby Warburg.

4 Março 2020, 08:00 Vítor Manuel Guimarães Veríssimo Serrão

A ‘DENKRAUM’ DE WARBURG E BUSCA DA PLENITUDE DE SABERES. Atento às obras de Aby Warburg (1866-1929), gostava de poder aprofundar o que diga respeito à sabedoria da pesquisa, a esse sentido de saber mais sobre as coisas do mundo, a esse poder de perscrutar nos seus interstícios de memória e mostrar os traços de luminosidade que lá existem. A capacidade de investigar no e com o «tempo», seja sobre artes e letras, ou sobre as demais coisas a que chamamos ‘cultura’, não pode ser um exercício de elitismo de classe, prática de uns quantos sábios enclausurados em inacessíveis torres de marfim e indiferentes ao fluir da História. Terá de ser sim (pelo contrário) um campo poderoso de indagações feitas com coração, de reflexões cruzadas, de capacidade de discernimento -- porque é também o campo das hipóteses, aquelas que conduzem à afectividade plena, à consciencialização orgânica, ao prazer da partilha dos saberes. O útil conceito de Denkraum usado por Warburg explicava justamente essa esfera de intervenção do intelectual globalizado, atento à génese da cultura, fosse apenas teórica, ou historicamente vivenciada. Como nos lembra Claudia Wedepohl (‘Denkraum de Aby Warburg: génese e significado’), o termo desdobra-se em ‘Denken’, que significa reflexão, pensamento crítico, e ‘Raum’, espaço, ou seja, o conceito visa uma práxis de investigação com sentido de abertura e com infinitas possibilidades interpretativas, capaz de perceber as coisas e divulgar os seus sentidos mais profundos perante as comunidades, e capaz de ter pulmão social, consciência histórica. E Aby Warburg não falava só da arte do Renascimento, por certo. Para quem defende um mundo mais justo e igualitário, onde a Cultura sirva de barómetro de partilha e de fruição, seja das coisas da arte, da música, da literatura, que assim se tornem possíveis e plausíveis, é necessário que da parte de quem investiga exista uma agenda de trabalhos definida, global, construída com estes pressupostos. Os famosos ‘Bilderatlas’ de Warburg, a sua ‘Mnemosine’, estruturaram-se assim: uma Iconologia e uma História tornada, mais do que tudo, numa Antropologia das Artes e da Cultura. Ou seja, como diria Antonio Gramsci na sua definição de ‘intelectual orgânico’, uma capacidade de saber mais rasgando pistas e iluminando os caminhos mais obscuros.  

    O conceito de programa artistico liga-se a um outro, o de Historia de Arte Total (Gesamtkunstwerk), também ele repetido à exaustão pelos historiadores de arte e, muitas vezes, sem a devida ponderação, de novo se impõe clarificar o seu uso. Só em situações contextuais precisas de definição de clientelas e gostos se pode perceber o porquê dos comportamentos criadores (e, também, as linhas de perduração e continuidade, aquilo para o qual o lúcido Aby Warburg reclamava o conceito de Iconologia do Intervalo, com todos os seus significados e abertura de possibilidades). Parece-me que no caso recentemente esmiuçado em aula do mecenato do Arcebispo eborense D. Teotónio de Bragança (1578-1602), que estudei ao pormenor, existiu mesmo uma ideia motriz de um encomendante, uma organização de ideias com a sua base programática e com os seus códigos significantes, que foram coerentemente articulados pelos executantes do programa do Arcebispo: ou seja, existiu mesmo, nesse caso teórica e visualmente ‘tridentino’, a aplicação consequente de uma ars senza tempo de dialecto alentejano, usada como arte total de novo tipo para responder a uma situação de especial favorecimento da arquitectura e das artes de decoração. Em casos de estudo (p. ex. a Évora de D. Teotónio de Bragança, e outros casos bem documentados e esclarecidos pela pesquisa multi-disciplinar), o conceito de Programa Artístico parece adequar-se -- e, mais, ajuda a explicar melhor o sentido das obras produzidas nesse contexto. Em muitos outros casos o que se verifica é uma só aparenter totalidade resultante de várias campanhas que contribuíram para moldar um determinado espaço, ainda que sem relação com a campanha precedente, pelo que o uso do conceito ´não pode ser aplicado com a mesma dose de rigor.

     A ideia de programa e o conceito de totalidade implicam um tempo específico, um mentor e definidor de intenções, um conjunto claro de ideias, uma junção de diversas artes segundo um denominador comum, e um gosto evidenciado por parte de quem encomenda e produz -- e só com a junção de todas essas circunstâncias se pode utilizar o conceito de programa de 'arte total'. Em História da Arte, a prática de campo, a metodologia de investigação e a base de conceptualização teórica só podem mesmo andar de mãos dadas: só assim cumprimos o nosso papel de devolver memória às obras de arte e reabrir com elas um diálogo de fascínios e significantes que o tempo histórico e a alteração de gostos forçosamente adulterou ou interrompeu.