Sumários

De Vouillé ao III Concílio de Toledo: afirmação do poder visigótico, religião e centralização (aula leccionada pelo Dr. Bruno Santos)

23 Abril 2026, 12:30 Rodrigo Furtado


1) Os visigodos c. 500

1.1 – A Península Ibérica:

-  os visigodos têm uma posição de hegemonia, não de domínio efectivo.

- uma constelação de cidades autónomas e pequenos poderes locais na Península. Isidoro de Sevilha (c. 560-c. 635), História dos Reis dos Godos, Vândalos e Suevos, 49b:

[Leovigildo]  . . . conquistou os cântabros, tomou Aregia, submeteu toda a Sabaria. Sucumbiram ante as suas armas muitas cidades rebeldes da Hispânia. Dispersou os soldados [imperiais] em muitas batalhas e tomou algumas praças que estes ocupavam. Levou a guerra aos suevos e submeteu o seu reino com admirável rapidez.

1.2 – A Gália:

- o reino visigodo desta altura é uma realidade gálica.

- a importância de Toulouse.

- novos rivais: a formação do reino franco a Norte.

 

2) A Batalha de Vouillé (507) e os seus efeitos

2.1 – Guerra com os francos e os burgúndios, batalha de Vouillé, morte em combate de Alarico II, perda da maior parte dos territórios na Gália.

2.2 – Gesaleico, Amalarico e a intervenção de Teodorico I na guerra.

2.3 – O domínio de Teodorico sobre os dois reinos godos.

2.4 – Separação dos dois reinos no contexto da sucessão difícil de Teodorico I em Itália.

2.5 – Amalarico e Teudis. Um rei-criança agora adulto, mas sem poder (comparação com precedentes imperiais como Honório).

2.6 – Os reis ostrogodos: Teudis e Teudisclo.

2.7 – No rescaldo de Vouillé, o reino visigodo vai progressivamente transferindo o seu centro de gravidade para a Península Ibérica.

 

3) A ascensão da família de Liuva I

3.1 – A morte de Atanarico e o interregno.

3.2 – Liuva I um rei na Septimânia

3.3 – Co-reinado de Leovigildo. Precedentes imperiais.

3.4 – O casamento com Gosvinta (precedentes imperiais destas alianças matrimonais): aliança com a facção de Atanarico.

3.5 – As campanhas do tempo de Leovigildo. Agora sim os visigodos passam a controlar directamente a maior parte da Península. 

 

4) Imitatio imperii no tempo de Leovigildo

4.1 – A ideologia dos reinos pós-romanos: tensão entre:

a) a deferência simbólica face ao Império e a ideia de que estes reinos se inscrevem ainda no espaço do Império

vs

b) A imitatio imperii como afirmação de poder e de independência.

4.2 – Análise de Isidoro de Sevilha (c. 560-c. 635), História dos Reis dos Godos, Vândalos e Suevos, 51:

[Leovigildo] foi o primeiro entre os godos a envergar vestes reais e a sentar-se num trono, porque antes tanto as vestes como o assento eram os mesmos para o povo e para os reis. Também fundou uma cidade na Celtibéria, à qual chamou Recópolis, em nome do seu filho. Da mesma forma, corrigiu as leis que tinham sido irregularmente promulgadas por Eurico, acrescentando várias que estavam em falta e eliminando as supérfluas. Reinou durante dezoito anos e morreu de causas naturais em Toledo.

- vestuário e cerimonial (distinção entre rei e súbditos); um rei de outra substância vs primus inter pares

- fundação de cidades

- elaboração de um código legal

- a importância de Toledo

4.4 – Outros aspectos desta imitatio imperii: titulaturas e cunhagem de moeda em nome próprio.

 

5) A questão religiosa no reino visigodo

5.1 – Recapitulação: o Concílio de Niceia e o arianismo; arianos e católicos no reino visigodo.

5.2 – A guerra entre Leovigildo e Hermenegildo. Conflito religioso leva a um conflito político ou vice-versa?

5.3 – Os esforços de unificação religiosa de Leovigildo através do arianismo.

5.4 – Recaredo e a conversão dos visigodos ao catolicismo no III Concílio de Toledo (589)

5.5 – Catolicismo, ideologia política e imitatio imperii (ligação com o que foi discutido na aula anterior a propósito de Justiniano). Análise de João de Bíclaro, Crónica, 92:

No oitavo ano do imperador Maurício, que corresponde ao quarto ano do rei Recaredo.

Um santo concílio de 72 bispos de toda a Hispânia, Gália Narbonense e Galiza foi reunido na cidade de Toledo, por ordem do rei Recaredo. O cristianíssimo Recaredo esteve presente no concílio, dando aos bispos um relato da sua conversão e da sua profissão de fé, assim como de todos os sacerdotes e do povo godo. . . .

Recaredo fez renascer nos nossos tempos a imagem de Constantino o Grande, cuja presença iluminou o santo concílio de Niceia. . . .  No presente concílio de Toledo, finalmente a perfídia de Ário foi cortada pela raiz. Portanto, desde o vigésimo ano do imperador Constantino até ao oitavo ano do imperador Maurício, que é o quarto ano do reinado de Recaredo, passaram-se 280 anos durante os quais a Igreja Católica lutou contra os ataques da heresia, mas pela graça de Deus finalmente saiu vitoriosa.

Bruno Santos

Rodrigo Furtado

Bibliografia:

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Valverde Castro, M. R. (2000). Ideología, simbolismo y ejercicio del poder real en la monarquía visigoda: un proceso de cambio, Salamanca. 

 


O projecto imperial de Justiniano: conquista, fracasso e fronteira. As estratégias bizantinas no ocidente (aula leccionada pelo Dr. Bruno Santos)

21 Abril 2026, 12:30 Rodrigo Furtado


1 – A queda de Bari em 1071: o domínio do Império Romano sobre partes do mediterrâneo ocidental não termina em 476.

2 – As origens do imperador Justiniano: os regimentos palatinos e a ascensão de Justino.

3 – O contexto geopolítico do mediterrâneo no início do século VI:

- Porquê que a metade oriental do Império Romano sobreviveu melhor aos desafios do século V? Uma geografia favorável e paz na fronteira com a Pérsia.

- Os imperadores em Constantinopla continuavam a governar a maior potência militar e económica do mediterrâneo.

- Hegemonia militar, mas também simbólica do Império sobre os reinos pós-romanos do mediterrâneo ocidental. Deferência simbólica face ao imperador: a cunhagem de moeda pseudo-imperial.

 

Parte 1 – Cultura e ideologia no Império Romano do tempo de Justiniano

1. Cristianismo e política religiosa

1.1 – Os “Cristianismos”: católicos, arianos e monofisitas/anti-calcedónia. A importância dos concílios de Niceia (325) e de Calcedónia (451).

1.2 – A política religiosa de Justiniano:

- um esforço de uniformização do credo: a tentativa de encontrar uma posição comum com os monofisitas.

- aprofundamento as divisões entre católicos latinos e gregos e entrincheirar o que serão os grandes grupos de cristãos do mediterrâneo medieval, cada um com a sua língua litúrgica: latina, grega, copta, arménia e siríaca.

- O papel do imperador como guardião do Reino de Deus na terra. Seguir a posição teológica do Imperador intersecta-se com lealdade política.

- O imperador como apóstolo: missões e conversão de líderes estrangeiros.

1.3 – Cristianismo e a herança cultural da Antiguidade

- Clima de maior desconfiança face à cultura não-cristã. Debate entre conservadores que queriam preservar o currículo herdado da Antiguidade e os que defendiam que este deveria ser completamente cristianizado.

- Justiniano e a repressão de resquícios de paganismo: desconfiança em relação aos filósofos neoplatónicos. O desaparecimento das estruturas seculares de ensino. Exemplo: encerramento de uma importante academia neoplatónica em Atenas.

 

 

 

2) O “Enciclopedismo”: esforço de recolha e compilação do conhecimento da Antiguidade

2.1 – Uma crescente desconexão em relação à cultura da Antiguidade.

2.2 – O exemplo do trabalho de João, o Lídio.

2.4 – Uma tendência espelhada na própria actuação de Justiniano: o Código de Justiniano

 

 

Parte 2 – Conquistas e eventos militares do tempo de Justiniano

1) Introdução: 

1.1 – os indivíduos:

- Belisário

- Procópio de Cesareia

1.2 – um esforço consciente de reconstituir o Império. Procópio de Cesareia (Edifícios 2.6.6):

Então veio o imperador Justiniano, ao qual Deus confiou a missão de velar pelo Império Romano e de o reconstituir na medida do possível.

 

2) A conquista do reino vândalo

2.1 – casus belli – a lei de sucessão de Genserico; Hilderico (r. 523-530) e a imperialização da monarquia vândala; o golpe de Gelimero (r. 530-533).

2.2 – campanha de Belisário e a batalha de Ad Decimum.

 

3) A guerra gótica

3.1 – contexto: Odoacro, Zenão, Teodorico e a formação do reino ostrogodo.

3.2 - casus belli- a sucessão difícil de Teodorico: a morte do sucessor, Eutarico; o reinado de uma criança, Atalarico; a influência da mãe, Amalasunta; os conflitos com Teodato.

3.3 – uma guerra longa, c. 535-554

- 20 anos de conflito, guerra só termina por volta de 554, durante os quais as principais cidades trocam de mãos várias vezes. Destruição urbana, fomes e doenças.

- Ruína da velha aristocracia senatorial italiana.

4) Conquistas na Península. O confronto entre Ágila e Atanagildo.

Bruno Santos

Rodrigo Furtado

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A fragmentação imperial, a persistência das estruturas locais e fim do eixo comercial Cartago–Hispânia.

16 Abril 2026, 12:30 Rodrigo Furtado


1.     Entretanto na Hispânia: construção e destruição do reino suevo

1.1  A travessia do Reno em 406. A chegada em 409. Vândalos, Suevos e Alanos. A intervenção de Vália na Hispânia.

1.2  Números e espaços dos Suevos: 25 mil pessoas? A Galécia: litoral e as cidades – Lugo, Astorga, Braga;

1.3  Uma economia de saque em direcção ao sul: os objectivos? Mérida (439); Sevilha (441); Saragoça e Lérida (449).

1.4  Um novo rei dos Visigodos + um novo imperador: a batalha do rio Órbigo (5/10/456): regnum destructum et finitum est Sueuorum (Hyd. 168).

 

2.     Entretanto fora da Hispânia.

2.1  A conquista vândala de Cartago em 439.

2.1.1      O vértice mediterrâneo do abastecimento da Hispânia: azeite, trigo; o mercado de luxo.

2.1.2      A articulação económica, que tinha durado no Mediterrâneo Ocidental desde o fim da segunda guerra púnica (201 a.C.), termina – novas centralidades, a secundarização da Itália e a fragmentação do mediterrâneo.

3.     Entretanto na Gália (470s-507): o reino de Toulouse.

3.1  Perante os imperadores de Roma nos 460s, enorme incerteza por parte dos próprios actores em presença na Gália e na Hispânia.

3.2  Independência de facto: Eurico (466-484) e Alarico II (484-507).

3.3  Apenas nos 470s se dá a conquista visigótica da Narbonense.

3.4  Pouca evidência sobre a presença visigótica na Hispânia. Provavelmente nenhuma.

3.4.1      O interesse de Eurico e de Alarico II pela Tarraconense e a tentativa de controlo de Tárraco e Saragoça.

3.4.2      Incapacidade visigótica para um controlo efectivo de território: provavevelmente mantinha pequena presença militar nas principais capitais de província.

3.4.3      O concílio de Agde de 506 e a ausência de bispos hispânicos. O que significa?

 

4.     Um problema: o triunfo do “localismo” (Kulikowski): fragmentação e diversidade.

4.1  Relações políticas que se articulam a nível local, perante a ausência de centro.

4.2  Ausência de hegemonia regional até finais do século VI: nenhuma autoridade se impõe de forma estável.

4.3  Os “independentistas” hispânicos dos 490s (~Egídio e Siágrio?): Burdunelo e Paulo. Os jogos de anfiteatro em Saragoça (até 560s).

4.4  O controlo visigótico é periférico e incompleto.

4.5  A monarquia visigoda no início do século VI é uma entre várias forças regionais.

Rodrigo Furtado

 

Bibliografia:

Abulafia, D. (2012), The Great Sea: a human history of the Mediterranean, Oxford, 226-238.

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A etnogénese dos Visigodos entre o Danúbio e a Aquitânia: três “andamentos” e um problema.

14 Abril 2026, 12:30 Rodrigo Furtado


1.     Em 376:  um império estável, sólido e próspero.

 2.     O colapso do Baixo Danúbio e a travessia dos “Godos”.

2.1  Quem são os Godos?

2.2  Migração: 376 e a passagem do Danúbio; uma passagem comum. A necessidade de controlar danos.

2.3  Rejeição: 378, a batalha de Adrianópolis e o colapso do exército oriental.

2.4  O primeiro assentamento: o ‘tratado’ de 382’.

2.5  Deslocações entre o Oriente e o Ocidente e as dificuldades de assentamento: migração sob pressão e em negociação.

2.6  O saque de Roma (24 de Agosto de 410).

3.     O foedus de Vália (418):

3.1  Um reino cliente no interior do império. Não há uma força centrífuga. Mas há um novo elemento de poder na região, que apesar de tudo não é o império (mas não quer a “independência”).

3.2  Entre 422-439: um reino cliente na Aquitânia torna-se uma presença permanente.

3.3  A intervenção contra os Hunos (453).

3.4  A intervenção contra os Suevos (456).

4.     Etnogénese: identidades políticas e a construção do “povo visigodo”

4.1  O conceito de “povo” ou “etnia” como uma construção política e jurídica.

4.2  A identidade visigoda resulta de negociações com Roma, das práticas militares e da autoatribuição de um papel político

4.3  Etnicidade não herdada — ela constrói-se na interação com estruturas imperiais.

Rodrigo Furtado

 

 

Bibliografia:

Halsall, G. (2005), ‘The Barbarian invasions’, The New Cambridge Medieval History. 1. 500-700, Cambridge University Press, 2005.

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9 Abril 2026, 12:30 Rodrigo Furtado

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