Sumários
O caráter inquiridor do livro e o dilema existencial que preside a história de Ciprian
26 Abril 2016, 17:00 • ALVA MARTINEZ TEIXEIRO
O caráter inquiridor do livro e o dilema existencial que preside a história de Ciprian e que é subtilmente proposto através de uma pergunta do pai: “será que Ciprian cabe ou será que ele entala?”
As críticas literárias e artísticas. Análise das censuras cáusticas presentes na história do pai aos princípios do realismo socialista – e, implicitamente, ao caráter prescritivo dos movimentos e escolas paradigmaticamente representados por esse infeliz epígono da arte soviética.
Os sentidos da viagem na obra. A pobre itinerância apresentada nas Aventuras, o aparente (mas indócil) imobilismo do pai, o desejo de evasão frustrado representado pelo avô e o périplo pela Europa do protagonista.
A mestria no desenho do ‘espírito do tempo’, da perceção generalizada de que existe uma crise em progresso – ecoando a sensação crescente de incerteza, descontentamento e frustração dos artistas e críticos – e da ambígua presença de uma certa autocomplacência – que, segundo a autora, existe ainda no campo cultural e que permite manter a miragem do progresso e da pujança do sistema. Análise da classificação totalizadora da arte proposta por Miki.
O retrato dessa dualidade do panorama cultural, pessimista e, ao mesmo tempo, ufanista e a adopção de uma estrutura interrogativa, articulada à volta de problemas candentes
do mundo artístico, como, por exemplo,“com quantos bons projetos se faz um artista?”, “o mercado estimula ou deturpa a criação artística?” ou “de quantos sapatos precisa um artista em trânsito?”.
Entrega da recensão crítica e exposição oral (individuais) sobre a obra Ignorância do sempre de J. Garcia Pessanha: Elsa Alves. Entrega da recensão crítica e exposição oral (individuais) sobre a obra de Nuno Ramos: Letícia Valandro, Philipp Kampschroer e Ana Malmaceda.
Bibliografia:
COMPAGNON, Antoine. “Vous avez dit contemporain?”. Texto publicado no site do College de France em 2011. Disponível em: <http://www.college-de- france.fr/media/lit_cont/UPL18787_5_A.Compagnon_Vous_avez_dit_contemporai n.pdf> Acesso em 08 de setembro de 2011.
PINTO, Silvia: “Agruras da ficção contemporânea”. In Revista Gragoatá, 24. Niterói: EdUFF, 2008, pp. 165-175.
O entrecruzamento de três tendências significativas da narrativa brasileira contemporânea: Esquilos de Pavlov de Laura Erber
19 Abril 2016, 17:00 • ALVA MARTINEZ TEIXEIRO
O entrecruzamento de três tendências significativas da narrativa brasileira contemporânea: Esquilos de Pavlov de Laura Erber: a revitalização do denominado cross genre, a atualização do grande tema literário da viagem e a renovação de uma certa escrita do eu. O alargamento dos caminhos da literatura graças ao entrecruzamento com outros discursos artísticos num modelo total, difuso e omnívoro de escrita, articulado à volta da dúvida e do questionamento, ou seja, da resposta interrogativa de Maurice Blanchot.
A proximidade a respeito da ‘literatura exigente’ (Leyla Perrone-Moisés) e a radical divergência relativamente ao ‘hiper-mimetismo’ (Alfredo Bosi). A valorização da busca de uma enunciação criativa divergente da tradição realista (Jaime Ginzburg).
A revisão do cânone genérico e o hibridismo. A legitimação a posteriori da ‘mestria’ da autora: da experimentalidade radical de Bénédicte vê o mar à aparente ‘guinada classicizante’ de Esquilos de Pavlov. A irónica desconstrução do romance de formação e de artista: a (de)formação artística do protagonista e a libertação de todo o aprendido a respeito do mundo da arte.
A prática metaficcional e a (auto)consciência artística no romance. A idealização proposta por Linda Hutcheon ao definir a metaficção como narcísica. A revelação de uma arte que tende a absorver em si o papel da crítica, uma crítica, aliás, tão construtiva que gera os objetos artísticos, em vez de ser produzida por eles.
A escolha da forma narrativa, do romance de formação, para retratar um momento artístico que, segundo autores essencialistas como Danto representa o fim da arte enquanto grande narrativa. O irónico diálogo implícito no texto com a comparação entre a História da Arte e o romance de formação, presente na proposta do filósofo e crítico norte-americano.
Entrega da recensão crítica e exposição oral (individuais) sobre a obra Ignorância do sempre de J. Garcia Pessanha: Alexander Altevoigt e Consuelo Peruzzo.
Bibliografia:
BLANCHOT (1999): La escritura del desastre (Caracas: Monte Avila Editores).
BOSI, Alfredo (2002): «Os estudos literários na era dos extremos» in BOSI, Alfredo, Literatura e resistência (São Paulo: Companhia das Letras).
GINZBURG, Jaime (2012): «O narrador na literatura brasileira contemporânea» in Tintas. Quaderni di letterature iberiche e iberoamericane, 2, pp. 199-221.
HUTCHEON, Linda (1984): Narcissistic narrative: the metafictional paradox (New York: Methuen).
PERRONE-MOISÉS, Leyla (2012): «A literatura exigente». Folha de São Paulo, caderno «Ilustríssima», 25/03/2012, pp. 4–5.
Neoficção, neorrealismo, nova sociedade
12 Abril 2016, 17:00 • ALVA MARTINEZ TEIXEIRO
Conclusões. Algumas tendências narrativas ligadas ao retrato social: a atualização do narrador desconfiável de estirpe machadiana e a visão cáustica e distanciada da burguesia brasileira; a radicalização da alienação burguesa e o retrato estranhado do ‘homem-cápsula’ (Georges Balandier); a evolução da estética naturalista e a exacerbação brutalista na literatura favelada; a literaturização subtil da experiência da inadequação social.
O paralelismo entre o processo de urbanização do Brasil e o desenvolvimento e centralidade da ficção urbana: análise do espaço da narrativa brasileira atual entendido como um espaço essencialmente urbano.
A modernidade agressiva do ‘brutalismo’ fonsequiano e a sua adatação na literatura favelada. A passagem da ‘dialética da malandragem’ à dialética da marginalidade’ (João Cézar de Castro Rocha). A visão da favela como um espaço segregado da cidade e culturalmente diferenciado, num representação que, pela primeira vez, adota a visão do favelado situado no seu espaço.
Análise do simbolismo presente na abertura de Cidade de Deus: a negação da estampa de ‘cartão-postal’. A distorção do flâneur: a substituição da errância pela fuga e consequente aceleração do discurso narrativo.
Análise de um fragmento da curta-metragem Eletrodoméstica de Kleber Mendonça Filho: o mapa ficcionalizado do medo, da alienação e da segregação presente nas metáforas literárias e visuais da narrativa e o cinema brasileiro.
O retrato da cidade: um espaço de segregação, mais do que de aglutinação. A aparição de narrativas sobre sujeitos desprovidos de poder e a sua relação com o espaço urbano. A experiência de inadequação e a representação da violência silenciosa e estrutural. A representação do ‘diferente’ como o feio, o sujo, o impuro, o contaminado (Iris Young) na narrativa contemporânea. O espaço simbólico do supermercado estudado por Regina Dalcastagnè: a permeabilidade desse espaço de encontro, a desenvoltura da classe média e os constrangimentos simbólicos vividos pelos ‘humildes’.
Entrega da recensão crítica e exposição oral (individuais) sobre a obra Ignorância do sempre de J. Garcia Pessanha: Aagje Plaetse e Daniel Fernando.
Bibliografia:
DALCASTAGNÈ, Regina (2014): “ in AA. VV.: Das luzes às soleiras – perspetivas críticas na literatura brasileira contemporânea. Ricardo Barberena e Vinícius Carneiro (Orgs.) (Porto Alegre: Editorial Luminara).
YOUNG, Iris Marion (2011): Justice and the Politics of Difference (Princeton: Princeton University Press).
O retrato da contingência e da incerteza pós-moderna no romance
5 Abril 2016, 17:00 • ALVA MARTINEZ TEIXEIRO
Os processos de identificação (e a oposição ao processo moderno de identidade) vivenciados pela narradora: formas efémeras e ‘descartáveis’ de adesão a situações e roles momentâneos. Breve análise de dois casos. A importância do corpo no romance. A performance corporal do processo paradoxal, em termos identitários, de perda, procura e fuga da protagonista. O corpo: prova radical e moldável da existência pessoal e ostentação de uma identidade provisória ou elegida de modo durável (David Le Breton). A construção do género como performance (Judith Butler) e a distorção e artificialidade dos mecanismos culturais de fabricação de género presentes nos processos de identificação. A crise de identidade e a crise de alteridade (Augé) presentes no romance.
Conclusões: a consciência da contingência e da incerteza pós-moderna (individual, coletiva, social e ideológica) e a organização diegética através da visão de um narrador em crise. A escolha da narradora e o distanciamento a respeito da ingenuidade trágica do Realismo (Féher Ferenc).
Entrega da recensão crítica e exposição oral (individuais) sobre a obra Carvão animal de A. P. Maia: Cecilia Frollano e Patrícia Brederode.
Bibliografia:
AUGÉ, Marc (2014): Pour une anthropologie des mondes contemporains (Paris: Flammarion, Col. ‘Champs essais’).
BAUMAN, Zygmunt (1999): Modernidade e ambivalência (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor).
BUTLER, Judith (2003), Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade [trad. Renato Aguiar], Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
GÓIS, Edma Cristina de (2013): “Papéis criados, papéis forjados no romance Nada a Dizer de Elvira Vigna” in Revista Diacrítica, vol. 7, nº 3
Disponível em:
http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S080789672013000300014
Alteridade, identidade e identificação em Nada a dizer
29 Março 2016, 17:00 • ALVA MARTINEZ TEIXEIRO
A segunda estratégia da vingança (continuação): o retrato distorcido de Paulo (personagem da narradora) no romance. O princípio de alteridade no seu retrato. As complexas relações entre identidade e alteridade na autoperceção que a narradora tem de si própria. A desconstrução de Paulo e a negação das ‘metanarrativas’ (Lyotard) implícita no romance: os princípios e valores da luta de classes e o questionamento dos ideais e do engajamento político de Paulo (a perspetiva parcial da narradora: o populismo paternalista, a megalomania e o hedonismo ligado às drogas, imperantes no seu retrato/interpretação/visão da juventude de Paulo).
A pobreza da cosmovisão da narradora latente no retrato de Paulo: o dualismo maniqueísta presente na divisão radical do mundo estabelecida entre ‘aqueles que sabem vender’ e ‘os outros’.
O retrato de N. como o ‘Outro’ perfeito no texto: a falta de profundidade psicológica de uma representante paradigmática do conflito burguês entre o ‘ser’ e o ‘parecer’. A presença e importância no discurso da narradora da categoria estética do grotesco: o poder de distanciamento, de negação e de erosão de princípios consagrados, como a maternidade, o casamento ou a autonomia feminina.
O desdobramento da narração: a desconstrução de si própria realizada pela narradora. A elaboração do discurso a partir de uma retórica que recorre à ironia para gerar um efeito de distanciamento oposto ao sentimentalismo.
O questionamento da identidade ‘plena’ da narradora-protagonista: o estereótipo da vítima. A descoberta da fragilidade da identidade (uma ilusão, uma criação). A ideia da impossibilidade pós-moderna de uma identidade única, fixa e estável.
A função simbólica da casa: a intimidade doméstica e a ‘abertura’ e ‘disponibilidade’ da protagonista.
A traição da protagonista relativamente aos seus ideias (ligada, mais uma vez, à descrença nas metanarrativas de Lyotard).
A ambivalência presente na procura identitária da protagonista: a presença de princípios contrários e a vivência da tensão existencial, num desafio aos limites. O processo de ‘identificação’ (Michel Maffesoli).
Entrega da recensão crítica e exposição oral (individuais) sobre a obra Corpo presente de J. P. Cuenca: Daria MiKocka, Karine Rocha e Maria do Céu Figueira Mantas.
Bibliografia:
BAUMAN, Zygmunt (1999): Modernidade e ambivalência (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor).
FUX, Jacques & ABREU, Débora Salomão de (2012): “O feminino e a psicanálise em Nada a dizer, de Elvira Vigna” in Revista e-scrita, vol. 3. Disponível em:
http://www.uniabeu.edu.br/publica/index.php/RE/article/view/318
LYOTARD, Jean-François (1979): Le condition postmoderne – rapport sur le savoir (Paris: Les Éditions de Minuit).
MAFFESOLI, Michel (1999): No fundo das aparências (Petrópolis: Vozes [2ª ed.]).