Sumários

A filosofia e as suas questões

22 Novembro 2017, 17:00 Maria Leonor Lamas de Oliveira Xavier

Aula nº9 (22/ 11/ 17)

A filosofia e as suas questões. Os futuros de longo prazo: da questão da morte às questões do nosso futuro colectivo.

Textos de uso lectivo sobre a justiça e o nosso futuro colectivo: Platão, República IV, 443 b – 444 a (Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1976², pp.204-205); Hans-Georg Gadamer, “Diversidade da Europa. Herança e Futuro”, in Idem, Herança e Futuro da Europa (1989), trad. António Hall, rev. Artur Mourão, Lisboa, Edições 70, 1998, pp.11-12; Viriato Soromenho-Marques, Portugal na Queda da Europa, Lisboa, Círculo de Leitores / Temas e Debates, 2014, pp.184-185, 187-189. Apresentações por Leonor Vasconcelos, Maria Teresa Mendonça e Pedro Afonso; arguição por José Luís Teixeira e debate com a turma.


Noções de metodologia: as citações e as notas de rodapé

17 Novembro 2017, 10:00 Adriana Veríssimo Serrão

Caros Alunos, peço de novo que usem: adrianaserrao@fl.ul.pt

 

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Noções de metodologia: as citações e as notas de rodapé

 

É necessário distinguir entre a questão do método, ou dos métodos da filosofia, que cons­titui uma questão intrinsecamente filosófica, e a metodologia requerida para a ela­bo­ra­ção e apresentação de um trabalho científico, incluindo o trabalho filo­sófico. Neste caso, trata-se de um conjunto de regras, partilhadas pela comunidade científica, que dotam um texto (seja, um ar­tigo de revista, um capítulo de uma obra colectiva, uma publicação independente, ou, no caso do estudante universitário, os diversos trabalhos temáticos) um certo número de ca­rac­terísticas formais. Embora não exista um modelo rígido, nem um modelo único, sendo mesmo pra­ticadas e ad­mi­tidas pequenas variantes – note-se que mui­tas revistas filo­sóficas apresentam as suas próprias normas e impõem aos seus co­la­­bo­radores a obediência estrita às mes­mas –, existem alguns critérios fundamentais que o estudante tem de conhecer e deve praticar nos seus trabalhos[1]. Entre estas regras contam-se a referência bibliográfica das obras (livros ou outro tipo de textos), bem como o uso ponderado das citações.

A citação é um procedimento quase indispensável, uma vez que trabalhamos com textos, a partir de textos e "sobre textos", num contínuo exercício de ex­pli­ca­ção-comentário--interpretação, que é, no fundo, uma forma de diálogo. Através da citação de fra­ses ou pequenos excertos dos filósofos, estamos a dar-lhes a palavra, salientando as passagens mais relevantes, ao mesmo tempo que vamos também confirmando que a nossa interpretação é fiel ao seu pensamento. O número de citações não tem regra fixa. Depende sobretudo do critério da per­tinência (não usar citações desajustadas), da necessidade (não usar citações repetidas e des­­­ne­ces­sárias) e do bom-senso.

As citações devem ser sempre identificadas como tal, isto é, separadas por aspas, para que não haja a menor confusão com o nosso texto.

 

Exemplo 1: As citações, como afirma Júlio Fragata, "são notas em que se apela para a au­toridade de outros autores ou das fontes para ilustrar e, sobretudo, para do­cu­mentar ou com­provar o texto"[2].

 

Exemplo 2: A definição da Estética como disciplina da filosofia tem variado muito ao longo das épocas históricas. Recentemente, o filósofo americano Allen Carlson oferece a seguinte de­fi­nição: "A Estética é a área da filosofia que diz respeito à nossa apreciação das coisas na medida em que elas afec­tam os nossos sentidos, e especialmente na medida em que os afectam de uma ma­neira agra­dá­vel."[3] O autor pretende mostrar como a Estética não se resume a uma filosofia da arte.

 

Exemplo 3: A importância das citações num trabalho científico é reconhecida por todos os au­tores de livros sobre metodologia. José Silveira de Brito, entre outros, refere a este pro­­pósito:

 

"Se é habitual apresentar em nota de rodapé as citações no original, as ci­ta­ções integradas no texto [...] devem ser escritas no idioma em que o trabalho es­tá redigido. [...] Além disso, o esforço de tra­du­ção feito pelo autor do trabalho re­ve­lará tam­bém o domínio da matéria [...] e, por outro lado, o leitor terá uma mais fácil com­preensão [sub­li­nhados nossos/ meus]."[4]

 

Exemplo 4: O grande número de teorias sobre o valor estético da natureza que se têm de­sen­volvido nos últimos anos testemunham uma verdadeira "revolução" na atitude filosó­fica[5]. A saber, a filosofia volta a preocupar-se com o valor estético dos seres naturais, seja in­di­vi­dualmente considerados, seja integrados em conjuntos naturais, designados de paisagens[6], demonstrando como a visão estética é indissociável da atitude ética.

 

Exemplo 5: Filosofia (gr. φιλοσοφια; lat. philosophia; ingl. philosophy; franc. philosophie; alem. Philosophie; ital. filosofia).

 

Exemplo 6: Na análise do texto em que Kant expõe a sua concepção do ensino da fi­lo­sofia, o termo que maior dificuldade levanta à interpretação é o de Einsicht. Os tra­dutores não concordam numa tradução única para este termo, que tanto pode sig­nificar uma "perspectiva orientadora", como uma "intuição" ou "visão de conjunto"[7].

 

 

 

 

 

Elaboração de um projecto de trabalho (1-2 pp. )

Indique os textos de trabalho seleccionados.

Indique o conceito ou o problema central.

Apresente uma breve descrição das intenções e do conteúdo.

Apresente uma proposta de esquema.

 

 

O esquema ou estrutura do trabalho

Modelo A

Apresentação: indicar o tema, os textos de trabalho seleccionados, breve descrição do conteúdo e das intenções.

I. Análise do texto A.

II. Análise do texto B.

III. Comparação (semelhanças e diferenças).

Conclusão

Bibliografia

Modelo B

Apresentação: indicar o tema, os textos de trabalho seleccionados, breve descrição do conteúdo e das intenções.

I. Análise comparada de A e B sobre X

II. Análise comparada de A e B sobre Y

III. Análise comparada de A e B sobre Z

Conclusão

Bibliografia

 

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Noções de metodologia: a organização de uma Bibliografia final

A Bibliografia constitui a parte final de um trabalho e deve registar os textos, as obras, os artigos e outros materiais bibliográficos que foram essenciais para a sua ela­boração.

Em vez de uma simples listagem de títulos, deverá ser organizada, de pre­ferência, em secções.

1. Textos / Fontes / Bibliografia Primária (os textos do(s) autores.

2. Bibliografia Secundária (obras e estudos de apoio).

3. Obras Instrumentais.

Os títulos devem ser ordenados, e não dispostos aleatoriamente.

Para 1. Obras dos autores, é conveniente usar a ordenação cronológica.

Para 2. e 3., a or­dena­ção alfabética dos apelidos. Neste caso, o apelido e o nome pró­prio do(s) autor(es) de­vem ser invertidos.

BRITO, José H. Silveira de, Introdução à Metodologia do Trabalho Cien­tí­fico, Braga: Universidade Católica de Braga, 2001.

ECO, Umberto, Como se faz uma tese em Ciências Humanas, Lisboa: Editorial Presença, 1980.

FRAGATA, Júlio, Noções de Metodologia para a Elaboração de um Trabalho Científico, Porto: Livraria Tavares Martins, 1973.

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No caso de Bibliografias muito longas, poderá introduzir outras divisões.

Exemplo:

1. Obras de Kant

2. Estudos /Obras sobre Kant

2.1. Livros

2.2. Artigos

3. Obras Instrumentais

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As consultas na Internet. Embora constituam cada vez mais um meio de pes­quisa bibliográfica e de recolha de informação, comece por certificar-se de que se trata de um sítio de confiança. Desconfiar de páginas não assinadas!

McLaughlin, Brian & Bennett, Karen (2014), “Supervenience”, in The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2014 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/spr2014/entries/supervenience/>.

Quando utilizar informação da Net também dis­po­ní­vel em suporte de papel, é este que deve ser citado. Quando não, deve citar o site (sítio), mencionando a data da visita, uma vez que a informação está em cons­tante re­visão.

Jan Zalasiewicz, “Working group on the ‘Anthropocene’”, Subcommission on Quaternary Stratigraphy Website. http://quaternary.stratigraphy.org/workinggroups/anthropocene/ (accessed February 29, 2016) / (visitado em 13 Novembro 2017).

Richard Monastersky, “Anthropocene: The human age”, Nature 519 (7542). http://www.nature.com/news/anthropocene-the-human-age-1.17085 (accessed February 29, 2016).

 

 


[1] Existem, em língua portuguesa, os seguintes livros dedicados à metodologia do trabalho fi­lo­só­fico: Júlio Fragata, Noções de Metodologia para a Elaboração de um Trabalho Científico, Porto: Livraria Tavares Martins, 1973 [existe uma outra edição publicada pelas Edições Loyola de São Paulo, em 1981]; José H. Silveira de Brito, Introdução à Metodologia do Trabalho Cien­tí­fico, Braga: Uni­versidade Católica de Braga, 2001. Muito útil para este tema, e de fácil acesso, é o livro de Umberto Eco, Como se faz uma tese em Ciências Humanas, Lisboa: Editorial Presença, 1980.

[2] Júlio Fragata, op. cit., p. 94.

[3] "Aesthetics is the area of philosophy that concerns our appreciation of things as they affect our senses, and especially as they affect them in a pleasant way." Allen Carlson, Aesthetics and The Environment, London and New York: Routledge, 2000, p. xvii.

[4] José H. Silveira de Brito, Introdução à Metodologia do Trabalho Cien­tí­fico, p. 91.

[5] Refira-se, entre os mais importantes: Ar­nold Berleant, Living in the Landscape. Towards an Aesthetics of Environ­ment, Univ. Press of Kansas, 1997; L. Bonesio, Oltre il paesaggio. I luoghi tra este­tica e geofilosofia,. Ca­sa­lec­chio: Arian­­na Editrice, 2002; Paolo D’Angelo, Estetica della na­tura. Bel­lezza naturale, paesaggio, arte am­bien­tale, Roma-Bari: GLF, Editori Laterza, 2000.

[6] Sobre o interesse actual da filosofia pelas qualidades da natureza, devem consultar-se: Alain Roger, Court Traité du Paysage. Paris, Gallimard, 2001; Augustin Berque, Cinc propositions pour une théorie du paysage, Seyssel : Champ Vallon, 1994; Martin Seel, Eine Ästhetik der Natur, Frank­furt am Main: Suhrkamp, 1996; Fer­nando Guerreiro, O caminho da Montanha, Braga: Angelus Novus, 2000; Fi­nisterra. Revista Portuguesa de Geografia, vol. XXXVI, n.º72 (2001).

[7] Cf. sobre a dificuldade em verter para português o termo Einsicht, os comentários de L. Ri­bei­ro dos Santos, em A Razão Sensível. Estudos kantianos, Lisboa: Colibri, 1994, p.188 nota.


A filosofia e as suas questões

15 Novembro 2017, 17:00 Maria Leonor Lamas de Oliveira Xavier

Aula nº8 (15/ 11/ 17)

A filosofia e as suas questões. Dos valores da acção às questões sobre o futuro.

Ainda o texto de uso lectivo sobre a ética – Miguel Oliveira da Silva, Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer. Para um Debate de Cidadãos. Lisboa, Caminho, 2017, pp.21-22, 30-32 – apresentado na aula anterior por Jasmim Bettencourt: arguição por João Rebelo. Textos de uso lectivo sobre as virtudes e as paixões: Santo Agostinho, A Cidade de Deus, XIII, 21; XIV, 8, 9 (Tradução de J. Dias Pereira, Vol.II, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, [1209-1210; 1255; 1265-1268]). Apresentações por Afonso Vieira, Maria Teresa Mendonça e Pedro Afonso; arguições por Leonor Castelo, Leonor Vasconcelos, José Luís Teixeira e Jaime Martins.


Exercício 2

10 Novembro 2017, 10:00 Adriana Veríssimo Serrão

Textos de trabalho distribuídos:

Epicuro, Carta a Meneceu (temas: felicidade; morte).

Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes (selecção), (temas: felicidade; moralidade).

Nietzsche, Fragmentos Póstumos (selecção), (tema: conhecimento de si).

 

 

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Kant,  Antropologia numa Abordagem Pragmática, publicada em 1798.

 

Prefácio

[…] “Contudo, a todas as tentativas de alcançar uma tal ciência bem fundamentada opõem‑se consideráveis dificuldades que pertencem à própria natureza humana:

1. O homem que nota que o observam e o tentam examinar parecerá em­­­­ba­raçado (in­­­como­dado) e, nesse caso, não pode mostrar‑se tal como é; ou então dis­simula‑se, e com isso não quer ser conhecido tal como é.

2. Mas se quiser examinar‑se a si mesmo, sobretudo no que diz respeito ao seu es­­tado em situação de afecção, chega a uma situação crítica que ha­bi­tualmente não per­­mite nenhuma dis­simu­lação, a saber: quando os móbiles estão em acção, ele não se ob­serva, e quando se observa, os móbi­les são neutralizados.

3. Quando são duradouras, as circunstâncias de lugar e de tempo provocam há­bi­tos, que, como se costuma dizer, são uma segunda natureza e dificultam o juízo do ho­mem sobre si mesmo, sobre o que deve pensar de si, mas mais ainda sobre o conceito que deve fazer de um outro homem com quem está em re­lação; com efeito, a alteração da situação em que o homem está colocado pelo seu destino ou que ele, como aven­tu­reiro, também coloca a si mesmo, torna muito difícil à Antropo­logia elevar‑se ao estatuto de uma ciência estrita.

Por fim, existem sem dúvida, não fontes, mas meios auxiliares para a An­tro­po­logia: história universal, biografias, e mesmo peças de teatro e romances. Pois, se bem que aos últimos não subjaza propriamente experiência e verdade, mas apenas seja per­miti­do apresentar aqui efabulação e exagero dos caracteres e situações em que os ho­mens são colocados, à semelhança de imagens oníricas, e portanto pareçam não trazer nada para o conhecimento do homem, aqueles caracteres, tal como fo­ram es­­bo­çados por um Richardson ou um Molière, tiveram de ser extraídos nos seus traços fun­da­mentais da observação do que o homem realmente faz e deixa fazer; porque se é certo que em grau ex­­cedem a natureza humana, na qualidade porém têm de ser coincidentes com ela.

Uma Antropologia em abordagem pragmática, siste­ma­ticamente esboçada e no en­­tanto po­pular (com recurso a exemplos que cada leitor pode além disso des­cobrir), traz consigo uma vanta­gem para o público leitor: graças à exaustividade das rubricas sob as quais pode ser colocada a ob­servação de tal ou tal propriedade humana retirada da prá­tica, ofe­re­ce‑se ao leitor a oportunidade e o desafio de fazer de cada uma delas um tema pr­óprio e de a colocar na secção a que pertence; assim, nesta An­tropologia, os trabalhos re­­partir‑se‑ão por si mesmos entre os amadores deste estudo e serão reunidos num todo exac­tamente pela unidade do plano; deste modo, o desen­volvimento desta ciên­cia de in­te­res­se geral será favorecido e acelerado.”

Trad. port. Adriana Veríssimo Serrão, in A Invenção do “Homem”. Raça, Cultura e História na Alemanha do século XVIII, Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2002, pp. 50-52.

 

 

 

 

 


A filosofia e as suas questões

8 Novembro 2017, 17:00 Maria Leonor Lamas de Oliveira Xavier

Aula nº7 (8/ 11/ 17)

A filosofia e as suas questões. Da questão da origem das ideias à questão dos princípios da acção.

Textos de uso lectivo sobre a ética: M. C. Patrão Neves e W. Osswald, Bioética Simples, Lisboa, Verbo, 2008, pp.8-9; Cristina Beckert, “Ética animal: uma contradição nos termos?”, in C. Beckert (Coord.), Ética Ambiental. Uma Ética para o Futuro, Lisboa, CFUL, 2003, p.65; Pedro Galvão, Ética com Razões, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Galvão, 2015, pp.9-11; Miguel Oliveira da Silva, Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer. Para um Debate de Cidadãos. Lisboa, Caminho, 2017, pp.21-22, 30-32. Apresentações por Gonçalo Bastos, Luís Miguel Teixeira, João Aparício, Jasmim Bettencourt. Arguições por Ricardo Oliveira, Ana Rita Nobre, Marta Paneiro, João Rebelo.