Sumários

II. Sobre Sentido e Denotação - 3

5 Março 2026, 13:00 António José Teiga Zilhão


Análise e discussão do ensaio de Gottlob Frege Sobre Sentido e Denotação (Ueber Sinn und Bedeutung) de 1892 - 3

XVI) Consideração de excepções à tese geral de que a denotação de uma frase declarativa completa seria um valor de verdade: nos casos nos quais uma frase declarativa completa contém outra frase declarativa completa como sua parte constituinte, a qual pretende dar conta de o que foi proferido por outrem, esta frase constituinte encontrar-se-á ou no discurso directo ou no discurso indirecto; no primeiro caso, a sua denotação é outro objecto que não um valor de verdade, a saber, uma 
frase, nomeadamente, a frase que nela se encontra indicada entre aspas; no segundo caso, a sua denotação é um pensamento, nomeadamente, o pensamento expresso através da(s) frase(s) proferida(s) originalmente por outremXVII) Distinção entre orações subordinadas substantivas, adjectivas e adverbiais e análise desta questão específica em cada um destes tipos de orações subordinadas: A. As orações subordinadas em discurso indirecto (já analisadas) são um caso particular de orações substantivas; B. Extensão do caso das orações subordinadas em discurso indirecto, em que a denotação das mesmas e dos termos singulares que nelas ocorrem é indirecta (i.e., é um pensamento, no primeiro caso, ou um modo de apresentação, no segundo caso), à generalidade dos casos em que as orações subordinadas substantivas ocorrem no âmbito de uma frase complexa de atribuição de atitude proposicional (atribuição de crenças, de desejos, de temores, de suspeitas, etc.); C. Extensão da análise anterior ao caso das orações adverbiais finais e imperativas, i.e, inclusão destas no mesmo âmbito do das orações substantivas que ocorrem no âmbito de uma frase complexa de atribuição de atitude proposicional. Assim, as primeiras denotam pensamentos, nomeadamente, aqueles pensamentos que constituem o sentido da oração subordinada quando esta ocorre como uma frase independente; já as segundas denotam ordens, uma vez que uma frase imperativa não tem um conteúdo declarativo, não podendo por isso ser verdadeira ou falsa; D. Análise do caso das orações subordinadas substantivas relativas; na realidade, estas frases desempenham o papel de uma descrição definida, a qual é um termo singular; nestes casos, a denotação dessa oração subordinada é então o objecto ou indivíduo cujo nome próprio, ou cuja descrição definida, o pronome relativo substitui e o seu sentido é apenas parte de um pensamento (i.e., é um modo de apresentação) e não um pensamento completo. E. Análise do caso das orações subordinadas adjectivas; na realidade, estas frases desempenham o papel de um termo conceptual sendo, portanto, a sua denotação um conceito. XVIII) A tese, característica da Lógica clássica, de que, no âmbito dos usos cognitivos do discurso, o uso de um nome próprio no contexto de uma frase pressupõe que o mesmo tenha que ter uma denotação. Em acordo com esta tese, Frege defende, ao contrário de Russell, que uma descrição definida não contém qualquer frase existencial escondida; utilizar uma descrição definida sem denotação numa frase seria, na realidade, violar uma regra de sintaxe lógica; deste modo, uma tal frase seria, na realidade, uma 'fórmula mal formada' da linguagem. Deste ponto de vista, não se põe, para Frege, a questão de saber nem qual seria o sentido de uma frase contendo no lugar do sujeito um nome próprio destituído de denotação nem qual seria o sentido da negação da mesma.


II. Sobre Sentido e Denotação - 2

3 Março 2026, 13:00 António José Teiga Zilhão

Análise e discussão do ensaio de Gottlob Frege Sobre Sentido e Denotação (Ueber Sinn und Bedeutung) de 1892 - 2
VIII) Distinção entre denotação (Bedeutung), sentido (Sinn) e representação (Vorstellung). Esta distinção corre paralela à distinção estabelecida por Frege entre dimensões ontológicas distintas: enquanto que o que constitui a denotação ou o sentido de termos ou frases são entidades que pertencem a dimensões ontológicas objectivas (materiais ou abstractas), isto é, dimensões ontológicas preenchidas por objectos, físicos ou abstractos, funções ou pensamentos, as representações são entidades que pertencem a uma dimensão ontológica subjectiva ou mental, i.e., as representações são os conteúdos de consciência suscitados de modo privado na mente de cada um em associação com o contacto com a denotação e/ou o sentido das frases e dos termos que as constituem. IX) Assim sendo, a denotação e o sentido de um termo ou de uma frase completa são o mesmo para todos; já as representações a eles associadas variam de uns para outros e não é possível comparar as representações de uns com as de outros. X) Aplicação da distinção sentido/denotação a frases afirmativas completas: o sentido de uma frase afirmativa completa é o pensamento que ela exprime; a denotação de uma frase afirmativa completa é um valor de verdade. XI) Distinção entre uso cognitivo e uso artístico das frases de uma qualquer língua: no primeiro caso, as frases declarativas completas têm sentido e denotação; no segundo caso, as frases declarativas completas apenas têm sentido mas não têm (ou, pelo menos, não têm que ter) denotação. XII) Justificação da tese de que a denotação de uma frase declarativa completa seria um valor de verdade: a) A consideração de que a denotação de uma frase é um valor de verdade permite salvaguardar o princípio leibniziano de que a substituição de termos co-denotativos numa frase declarativa completa não afecta o valor de verdade da mesma; b) A consideração de que a denotação de uma frase declarativa completa é um valor de verdade permite salvaguardar a composição funcional de frases complexas, i.e., quando uma frase complexa contém outras frases mais simples como seus constituintes, a substituição destas na frase complexa por frases que denotam o mesmo valor de verdade permite salvaguardar o valor de verdade da frase complexa. XIII) A conjunção das teses de que frases declarativas completas têm uma denotação e de que a mesma seria um valor de verdade arrasta consigo duas consequências contra-intuitivas, a saber: a) Todas as frases declarativas verdadeiras têm a mesma denotação - o Verdadeiro; b) Uma frase declarativa completa seria, na realidade, um nome próprio para um valor de verdade. XIV) Estas consequências devem, todavia, ser consideradas em associação com o princípio do contexto: de acordo com o mesmo, um juízo deve ser visto não como uma composição construída a partir de partes independentes e subsistentes por si, mas antes como uma decomposição retrogressiva de um aspecto do Verdadeiro (um pensamento) em partes constituintes que o estruturam. XV) Refutação da hipótese de que a verdade poderia ser um predicado que se aplicaria a frases tomadas como sujeitos de predicação: o acto judicativo em si já constitui um modo de tomar um conteúdo proposicional como verdadeiro; neste sentido, um juízo que atribuísse a propriedade da verdade a um conteúdo judicativo específico seria, simplesmente, redundante.


II. Sobre Sentido e Denotação - 1

26 Fevereiro 2026, 13:00 António José Teiga Zilhão

Análise e discussão do ensaio de Gottlob Frege Sobre Sentido e Denotação (Ueber Sinn und Bedeutung) de 1892 - 1   

I) Consideração de diferentes modos possíveis de entender a relação de igualdade: i) como uma relação entre sinais (que indicaria acerca de dois sinais que estes designariam o mesmo objecto); ii) como uma relação entre objectos (que indicaria acerca de dois objectos que estes seriam, na verdade, o mesmo). II) Argumento que milita contra o segundo entendimento e a favor do primeiro: nos casos em que frases do tipo 'a=b' fossem verdadeiras, a diferença em valor cognitivo entre as mesmas e frases do tipo 'a=a' ficaria, no âmbito do segundo entendimento, por explicar. III) Argumento que milita contra o primeiro entendimento: o conhecimento que, com frequência, pretendemos exprimir por meio do uso de frases de igualdade verdadeiras do tipo 'a=b' é conhecimento substantivo com valor cognitivo real e não conhecimento linguístico acerca do modo como usamos os sinais 'a' e 'b'. IV) Solução para o problema: para além de uma  denotação (Bedeutung) - o objecto designado -, termos singulares (nomes ou descrições definidas) têm também um sentido (Sinn), o qual consiste no modo específico como a denotação dos mesmos é capturada; ora, a descoberta, expressa numa frase do tipo 'a=b', de que dois sentidos distintos estão associados a uma mesma denotação é, frequentemente, uma descoberta com um conteúdo cognitivo significativo (empírico ou matemático) e não uma descoberta de âmbito meramente linguístico; neste sentido, a relação de igualdade não é, tipicamente, uma relação entre sinais. V) Relação entre sinal, denotação e sentido: qualquer sinal pertencente a um sistema consistente tem um sentido e qualquer denotação é sempre capturada através de um sentido específico; mas daqui não se segue que todo o sentido específico capture uma denotação - com efeito, existem sentidos aos quais nenhuma denotação corresponde. VI) Distinção entre denotação habitual e denotação indirecta e entre sentido habitual e sentido indirecto. VII) A denotação indirecta de um termo singular é o seu sentido habitual. 


I. Função e Conceito - 3

24 Fevereiro 2026, 13:00 António José Teiga Zilhão

Análise e discussão do ensaio de Gottlob Frege Função e Conceito (Funktion und Begriff) de 1891 - 3
XXIX) Consideração de um novo tipo de funções: funções de valores de verdade para valores de verdade. XXX) A Horizontal como uma função que faz corresponder o valor de verdade Verdadeiro consigo próprio e quaisquer outros objectos com o valor de verdade Falso. XXXI) Os valores da função horizontal como os argumentos de todas as outras funções de verdade; XXXII) As funções de verdade negação e implicação. XXXIII) Distinção entre funções com um argumento (predicativas) e funções com dois ou mais argumentos (relacionais). XXXIV) Distinção entre funções de primeiro grau (que tomam objectos como argumentos) e funções de segundo grau (que tomam funções de primeiro grau como argumentos). XXXV) Teoria da Quantificação: I) a quantificação universal como uma função de segundo grau, a qual adquire o valor V quando e só quando a função de primeiro grau que toma como argumento adquire sempre o valor V sejam quais forem os objectos do domínio que a saturem. XXXVI) Teoria da Quantificação: II) definição da quantificação existencial a partir da quantificação universal - a quantificação existencial como a negação da quantificação universal de uma negação proposicional. XXXVII) Apresentação da notação conceptual introduzida na Begriffsschrifft: representação na mesma das funções horizontalnegaçãoimplicação e quantificação universal. XXXVIII) A introdução do traço judicativo na Begriffsschrifft: um conteúdo proposicional representa um valor de verdade se, e somente se, ocorrer como conteúdo de um juízo; uma tal ocorrência é representada na notação por meio da prefixação do traço judicativo ao conteúdo proposicional. XXXIX) Um conteúdo proposicional que ocorre como conteúdo de um juízo é um conteúdo proposicional que é tomado como verdadeiro; um conteúdo proposicional que é meramente considerado, sem ser ainda tomado como conteúdo de um juízo, embora remeta para um valor de verdade, não representa ainda nenhum deles. XL) Exemplos de enunciados matemáticos expressos por intermédio da notação usada em Begriffsschrifft. XLI) Funções homógradas e funções heterógradas. XLII) Retrospecção do conjunto do ensaio.  


I. Função e Conceito - 2

19 Fevereiro 2026, 13:00 António José Teiga Zilhão

Análise e discussão do ensaio de Gottlob Frege Função e Conceito (Funktion und Begriff) de 1891 - 2
IX) Representação geométrica de funções como linhas num referencial cartesiano: cada ponto da linha (recta ou curva) representa um dos pares ordenados de argumentos e valores que constitui o curso de valores da função. X) Noção de curso de valores de uma função - o curso de valores de uma função é um objecto.  XI) Representação do curso de valores de uma função por meio de uma simbologia específica. XII) As funções são concebidas por Frege como entidades intrinsecamente intensionais; ao contrário da igualdade entre conjuntos e, por conseguinte, entre funções, no âmbito da Teoria dos Conjuntos de Georg Cantor, de acordo com a perspectiva de Frege, a igualdade ou identidade entre funções não se deixa elucidar extensionalmente como uma igualdade ou identidade entre os seus cursos de valores. XIII) Uma asserção de igualdade entre os cursos de valores de funções numéricas é uma proposição singular (de 1ª ordem), na qual a função (relacional) igualdade ou identidade é saturada por objectos (os cursos de valores das funções em causa), ou seja, uma tal asserção é uma proposição do género 'a=b'; ela é acerca de objectos e diz deles que são iguais ou o mesmo. XIV) Uma asserção que afirma de duas funções numéricas que elas originam os mesmos valores para os mesmos argumentos, quaisquer que estes sejam, é uma proposição geral, sujeita a quantificação universal, ou seja, é uma proposição na qual uma função de 2ª ordem (a universalidade) é saturada por uma função de 1ª ordem (uma igualdade ou identidade), a qual, por sua vez, é saturada pelos valores das funções numéricas em causa quando estas são saturadas pelos mesmos argumentos e tem valores de verdade como seus valores; uma tal asserção é acerca da função de 1ª ordem sobre a qual é predicada e diz dela que todos os objectos do domínio pertencem à sua extensão. XV) As duas direcções nas quais o pensamento matemático foi, ao longo do tempo, alargando a compreensão do campo ontológico regido por funções: i) primeira direcção: novas formas de cálculo passaram a ser entendidas também como funções; ii) segunda direcção: novos objectos passaram a ser considerados como sendo também susceptíveis de desempenhar o papel de argumentos e/ou valores de funções. XVI) Dois exemplos de i): a operação de passagem ao limite; a função de Dirichlet. XVII) Exemplo de ii): a inclusão no cálculo, como argumentos e valores de funções, de números complexos, isto é, números da forma a+bi, constituídos por uma parte real e por uma parte imaginária. XVIII) Novo alargamento deste movimento de pensamento proposto por Frege: as relações entre números (e.g., x=y, x>y, x<y) devem também ser apreendidas como um outro tipo de função, nomeadamente, como funções que tomam pares ou quaisquer outros n-tuplos ordenados de números como argumentos e que os correlacionam com um novo tipo de objecto como os seus valores - os valores de verdade, i.e., o Verdadeiro e o Falso. XIX) Mas a saturação com números de expressões funcionais contendo sinais relacionais gera frases declarativas relacionais. XX) Ora, se a denotação de uma expressão funcional numérica saturada é o valor (numérico) da função para o argumento que a satura, então a denotação de uma frase declarativa relacional deverá ser o valor da função relacional para o argumento que a satura, isto é, deverá ser o seu valor de verdade (i.e., o Verdadeiro ou o Falso). XXI) Deste modo, frases declarativas relacionais são nomes de valores de verdade. XXII) Neste sentido, uma frase de igualdade entre duas frases declarativas relacionais exprime uma igualdade entre objectos (i.e., é uma frase da forma 'a=b'), nomeadamente, entre os objectos que constituem as denotações das mesmas, os quais são valores de verdade; uma tal igualdade será, assim, ela própria, uma função relacional, a qual terá como argumento um par ordenado de valores de verdade e terá como valor um valor de verdade. XXIII) Mas, qualquer frase declarativa relacional numérica verdadeira pode ser apreendida como exprimindo a atribuição de uma propriedade a um número (e.g., a saturação da função relacional x.x=1 pelo argumento constituído pelo par ordenado (-1, -1), a qual tem como valor o Verdadeiro, pode ser lida como atribuindo ao número -1 a propriedade de, quando multiplicado por si próprio, ser igual a 1, etc.). XXIV) A constatação anterior tem um carácter geral; neste sentido, se, em Lógica, o que é predicado de um objecto como sua propriedade é um conceito, então somos levados a concluir que os conceitos são um tipo específico de função, nomeadamente, aquele tipo de função que toma objectos como seus argumentos e produz valores de verdade como seus valores. XXV) O curso de valores da função em que o conceito consiste constitui, então, a extensão desse conceito; logo, extensões de conceitos, qua cursos de valores de funções, são também objectos. XXVI) Introdução dos fundamentos do dualismo semântico - distinção entre denotação (Bedeutung) e sentido (Sinn); as frases declarativas categóricas denotam os seus valores de verdade, mas não os pensamentos (sentidos) que exprimem; em contrapartida, os pensamentos constituem o sentido das frases declarativas categóricas, mas não a sua denotação. XXVII) Exemplificação com o caso já considerado das frases relacionais de igualdade entre frases declarativas: elas indicam a igualdade das denotações das frases declarativas colocadas à esquerda e à direita do sinal de igual (i.e., a igualdade dos seus valores de verdade), mas não supõem a igualdade dos pensamentos ou sentidos expressos nessas frases (i.e., os modos por meio dos quais são capturados os objectos por elas denotados). XXVIII) De modo semelhante, uma frase relacional de igualdade em que o lugar dos relata é ocupado por nomes, descrições definidas ou outros termos singulares standard é uma frase que indica a igualdade dos objectos denotados pelos termos singulares em causa, mas não supõe a igualdade dos sentidos, pensamentos, ou modos de apresentação expressos nesses termos.