Sumários

Rostos em gradação

10 Abril 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

Hoje dedicámos o nosso tempo a ver parte do making of do filme Shirin de Abbas Kiarostami, através do qual pudemos descobrir verdades ocultas de rostos que já antes viramos dessa obra cinematográfica. Ao passarmos para os bastidores do filme, quebrou-se a magia do mesmo. Adquirimos, porém, outra sabedoria que Kiarostami fez passar para as suas actrizes: serem autênticas na expressão das suas emoções, recorrerem às suas próprias histórias de vida sem medo e por elas deixando-se contaminar. Shirin reviveria assim nestas mulheres que a nós, espectadoras e espectadores, já haviam antes tocado. Duplamente convocadas as nossas histórias de amor recriavam-se pela arte da vida que o filme configura de forma singela e com meios reduzidos.  

Estivemos afinal a ver como um realizador fantástico, sem grandes condições para a produção de um filme, transforma a cave da casa onde habita num estúdio, e nos consegue envolver através das suas mulheres-actrizes numa história de amor pungente guardada na memória cultural de um povo. Kiarostami já não está entre nós, mas estão os seus filmes sempre delicados e poéticos. O Irão de Kiarostami é uma filigrana subtil.

 

Filme visionado:

KIAROSTAMI, Abbas, Shirin, DVD, 2008, em farsi com legendas em inglês, 91 min. acrescido do making of de Hamideh Razavi, 27 min.


Os rostos da arte de Kiarostami

6 Abril 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

ABRIL                         6ª FEIRA                              11ª Aula    

 

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Dedicámos esta e a próxima aula ao visionamento de obra cinematográfica de Abbas Kiarostami. Apreciaremos o filme Shirin, do realizador iraniano falecido em 2016, na perspectiva da espectação do que na verdade não vemos (só o saberemos depois) mas apenas escutamos.

Porque nos interessa este filme se o que vemos são apenas os rostos de quem especta numa sala de cinema? Poderão esses rostos, e apenas eles, criar em nós emoções empáticas? E quem especta nada especta afinal, dedicando-se antes essas espectadoras à recuperação de memórias pessoais de âmbito sentimental. Saberemos mais tarde que a pedido do realizador. Talvez existam para além deste tipo de memórias, outras de que apenas temos o esboço em registo visual que os seus rostos permitem acompanhar e de que as suas mãos nos dão notícia. E tudo isto acontece em função de uma história de amor trágico representada (para nós) em desenho e gravura sobre uma princesa arménia e um príncipe persa. A história que escutamos em fundo, e com uma partitura sonora de acontecimentos encenados como se fosse uma peça radiofónica, transmite a estimulação necessária para que as actrizes se deixem envolver emocionalmente e nós com elas. A experiência é de 3º grau.

A conjugação abrange as histórias pessoais de cada uma dessas espectadoras, bem como a cultura a que pertencem. Porém, ela engloba também a presença de uma actriz ocidental, Isabelle Hupert, que não sendo iraniana, ali poderá estar com o intuito de universalizar os sentimentos despertados por uma frustrada história de amor. O que nos pretende dizer Kiarostami com este seu filme?

O filme interessa-nos pelo modo como esses rostos respondem à direcção de cena e à montagem do realizador, mas também como processo que põe à nossa disposição e durante o tempo de um filme aquilo a que habitualmente não temos acesso: observar comportamentos, movimentos corporais e expressões faciais de outros espectadores, quer seja no cinema, como é o caso, quer seja em outros tipos de espectáculos, sobretudo ao vivo.

Voltamos à expressão particular do rosto no contexto também particular do filme Shirin de Abbas Kiarostami. O espectáculo que contemplamos joga às escondidas com sentimentos e emoções. E nós colaboramos nesse jogo. Só disso teremos verdadeira consciência quando acessarmos ao making of do filme. Até lá exploramos com Kiarostami muitas possibilidades de querermos tornar visível o que é invisível e assim se manterá.

 Em farsi, com legendas em inglês, é-nos contada a epopeia antiga iraniana da princesa Shirin e do seu amado Khosrow e a esta narrativa damos nós corpo através de imaginação despertada por audição. Este é o processo afecto à ideia de peça radiofónica, género dramático de que muito poucos terão memória. Partilhamos assim um mesmo universo com as actrizes presentes na sala de cinema como montagem que se sujeitam ao mesmo desafio que nos é proposto sem que quase nos demos conta disso.

Os rostos que contemplamos não são rostos naturo-artísticos como os que vimos no espectáculo de Kathakali e que requerem longo treino de domínio muscular e aturada concentração. Os rostos que não nos olham nos olhos, porque observam uma história que não vêem mas conhecem, adquirem uma consciência artística sendo afinal naturais.

 

Filme visionado:

KIAROSTAMI, Abbas, Shirin, DVD, 2008, em farsi com legendas em inglês, 91 min

 


Realização do primeiro teste de avaliação de conhecimentos com consulta.

23 Março 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

Realização do primeiro teste de avaliação de conhecimentos com consulta.


Do rosto à conflitualidade interna e externa na espécie humana

20 Março 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

 

MARÇO                       3ª FEIRA                                        9ª Aula

 

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Finalmente despertámos para a realidade. Essa realidade é a aproximação do primeiro teste. A aula foi concorrida e muito participada. Poderia ser sempre assim?

Discutimos o que nos diz Darwin sobre o Amor, a Alegria, a Boa Disposição, os Sentimentos Ternos e a Devoção. Tudo emoções e sentimentos que nos animaram.

Compreendemos uma vez mais que existe uma estrutura emocional de base que é comum a todos nós, que se pode revelar em alguns animais, mas não em todos da mesma maneiras, e que sobre esse magma fervente que integra a nossa estrutura corporal incluindo a mente, se exerce como influência por parte de culturas e formas de sociabilização que criam entre nós diferenças territorialmente localizadas. Estas, por sua vez, disseminam-se à medida que atravessamos o planeta em busca de melhores condições de vida, em busca de felicidade.

No tempo de Darwin a circulação humana de terra em terra, de país em país, de continente em continente já era razoável, mas ainda não acelerada como é hoje. Os motivos que levam os seres humanos a partir de um território e a chegar a outro território são múltiplos, e cada vez mais esses motivos são nefastos. Apesar disso, verificamos que existem manifestações comportamentais de natureza social e cultural que afirmam um grupo de pessoas, uma comunidade, face a outras.

Acreditamos sem reserva que, hoje mais do que nunca, estamos definidos como espécie. A evolução da ciência genética, por exemplo, contribui para que nos conheçamos melhor, para que nos tratemos melhor, para que possamos identificar através de genes específicos, aspectos caracteriais do nosso ser, aquilo a que chamaríamos os bons e os maus genes. As particularidades sociológicas, culturais, religiosas, de natureza antropológica, que também nos caracterizam nem sempre recebem a melhor compreensão da parte daqueles que nos antagonizam. Essa conflitualidade, essa não-aceitação gera e antecipa diferença que em si nos faz conflituar.

É disto que fala o reportório teatral de muitos séculos, a ocidente e a oriente. Revermo-nos em espectáculos que nos fazem rir, chorar, que em nós criam revolta ou apaziguamento mais não é do que termos a oportunidade de face a outros (os que connosco espectam e os que para nós representam) sermos capazes de em vez de barreiras entre a cena e a plateia, conseguirmos criar pontes.

 

Leituras recomendadas:

- DARWIN, Charles 2006, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, trad. José Miguel Silva, Lisboa: Relógio D’Água, 163-179, 217-231, 233-257, 321-337.

FRAZZETTO, Giovanni 2014, Como Sentimos – O que a Neurociência pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções, Lisboa: Bertrand Editora.

- MENDES, Anabela, Notas para uma sociologia das artes do espectáculo – Reflexão sobre a utilização de parâmetros cognitivos aplicados a públicos de teatro e outras artes in: Maria Helena Serôdio (Dir.), Sinais de Cena 17, Junho de 2012, 60-69.

 

Youtube - Kathakali

https://www.youtube.com/watch?v=xGMRmoR7GPk


O rosto escondido. O rosto mostrado. A consciência das emoções

16 Março 2018, 14:00 Anabela Rodrigues Drago Miguens Mendes

MARÇO                       6ª FEIRA                                        8ª Aula

 

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Detivémo-nos sobre aspectos presentes na obra de Charles Darwin, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, que escolheramos antes com correspondência em capítulos da obra de Giovanni Frazzetto.

Seleccionámos assim os capítulos VII, VIII, X e XIV de Darwin para a nossa conversação.

Verifiquei com tristeza que este assunto estava atrasado na leitura pré-agendada e por isso a aula foi morna.

 

Sugeri aos alunos que em casa voltassem com mais tempo a observar e a fruir pequenos vídeos de Kathakali que se encontram na Internet,

Um espectáculo completo não existe disponível e o meu DVD local não foi possível vermos por incompatibilidade tecnológica.

 

Nunca referi até agora, por opção, o ensaio que publiquei na revista Sinais de Cena, 17.

Nem todos os materiais sugeridos têm de ser comentados em aula. Há uma zona obscura em certos textos que faz com que eles se possam disseminar sem a voz ao vivo. Também é possível que não colham qualquer interesse porque ninguém deles se abeirou e eles não foram suficientemente publicitados.

Este é um texto profundamente emocional sobre o qual tenho dificuldade em falar. Talvez não tanto o texto, mas as imagens. E por isso ficamos assim.

 

Leituras recomendadas:

- DARWIN, Charles 2006, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, trad. José Miguel Silva, Lisboa: Relógio D’Água, 163-179, 217-231, 233-257, 321-337.

FRAZZETTO, Giovanni 2014, Como Sentimos – O que a Neurociência pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções, Lisboa: Bertrand Editora.

- MENDES, Anabela, Notas para uma sociologia das artes do espectáculo – Reflexão sobre a utilização de parâmetros cognitivos aplicados a públicos de teatro e outras artes in: Maria Helena Serôdio (dir.), Sinais de Cena 17, Junho de 2012, 60-69.

 

Youtube - Kathakali

https://www.youtube.com/watch?v=xGMRmoR7GPk