Sumários

Identidade pessoal (2)

4 Dezembro 2024, 11:00 Ricardo Santos

A continuidade psicológica como critério da identidade pessoal. Revisão do problema da duplicação e das três opções possíveis. Poderá a opção (ii) ser um caso de identidade indeterminada? Semelhanças e diferenças com os casos típicos do chamado “problema dos muitos” (problem of the many) (Unger). A perspectiva animalista. A questão de saber o que somos (que tipo de ser). Tese central do animalismo: nós somos animais humanos. Rejeição da continuidade psicológica como critério de identidade. Reavaliação dos casos simples de transplante: as memórias acompanham o cérebro, mas não a pessoa. Três argumentos em defesa do animalismo: (1) já fomos um feto, e podemos cair em demência profunda (condições com as quais não temos continuidade psicológica); (2) a teoria da evolução diz que descendemos de outras espécies animais; (3) há um animal que pensa sempre que eu penso (o chamado “argumento do animal pensante”).

[Aula leccionada com a colaboração do Doutor Hugo Luzio.]


Identidade pessoal (1)

2 Dezembro 2024, 11:00 Ricardo Santos

O problema metafísico da identidade pessoal: o que faz as pessoas serem numericamente idênticas ao longo do tempo? A resposta dualista: a permanência de uma mesma mente imaterial (ou alma) é o que fundamenta a identidade pessoal. Crítica à resposta dualista: procurar explicar ‘a mesma pessoa’ com base em ‘a mesma alma’ é procurar explicar o obscuro pelo mais obscuro ainda. Que factos sobre uma pessoa a e sobre uma pessoa b (em tempos diferentes) poderiam mostrar que elas são ‘a mesma alma’? Alternativa: serão duas pessoas a mesma quando têm o mesmo corpo (ou corpos espácio-temporalmente contínuos)? O caso do príncipe e do sapateiro (Locke). O critério da continuidade psicológica. Maneiras artificiais de gerar a continuidade psicológica: transplante de cérebro (baseado na teoria da identidade mente-cérebro) ou teleportação (baseado no funcionalismo). O problema da duplicação (Wiggins). Qual das pessoas resultantes é a pessoa original? Exame das três opções disponíveis: (i) ambas, (ii) só uma ou (iii) nenhuma. A solução de Parfit: separação entre sobrevivência e identidade; valorização da sobrevivência (“a identidade pessoal não é o que mais importa”) e suas consequências éticas. O critério de identidade neo-lockeano: continuidade psicológica, causada de maneira apropriada, sem ramificações.

[Aula leccionada com a colaboração do Doutor Hugo Luzio.]


Mente e corpo (3)

28 Novembro 2024, 11:00 Ricardo Santos

Avaliação crítica da teoria da identidade mente-cérebro, nas suas duas versões – identidade tipo-tipo e identidade espécime-espécime. Duas objecções fortes: a redução do mental ao físico não parece viável; as propriedades mentais são causalmente eficazes. Argumento modal contra a teoria da identidade (Kripke): a identidade é uma relação necessária, mas as correlações entre estados mentais e estados físicos do sistema nervoso central são contingentes; logo, essas correlações não são identidades. Uma teoria fisicista alternativa: o funcionalismo. A tese funcionalista: cada processo mental identifica-se, não com o mecanismo físico que o realiza, mas com a função que esse mecanismo desempenha no sistema físico. Realizabilidade múltipla: a mesma função pode ser realizada em sistemas físicos diferentes, por diferentes componentes do sistema. Princípios subjacentes aos programas de Inteligência Artificial: distinção entre hardware e software; a mente é o programa que corre no cérebro; um programa suficientemente complexo, a correr numa máquina, teria os mesmos estados mentais que nós. Problemas para o funcionalismo: o argumento do espectro invertido; e o argumento do conhecimento (Nagel, Jackson). Alegadamente, as teorias fisicistas da mente não dão conta do carácter subjectivo da experiência.


Mente e corpo (2)

27 Novembro 2024, 11:00 Ricardo Santos

A teoria da identidade mente-cérebro. Serão os fenómenos mentais redutíveis a fenómenos físicos? Razões para duvidar da possibilidade de uma redução completa do mental ao físico. Comparação entre a física e a psicologia ou, em geral, entre ciências naturais e ciências humanas (ou ciências do comportamento), quanto às suas leis, explicações e previsões. O carácter normativo (ou ‘racionalizador’) das explicações psicológicas. O holismo do mental. Uma alternativa à redução do mental: o materialismo eliminativista (Quine, Churchland) e a defesa de um abandono progressivo da ‘psicologia popular’. A questão de saber se existe realmente causalidade mental: as razões (desejos, crenças, etc.) são causas do comportamento? O carácter nomológico da causalidade: onde há causalidade tem de haver uma lei. O paradoxo de Davidson: aparente inconsistência entre o carácter nomológico da causalidade, a existência de interacções causais entre o mental e o físico, e a inexistência de leis psicofísicas estritas. Solução de Davidson: os acontecimentos mentais são acontecimentos físicos, mas essa identidade é identidade entre espécimes (tokens) e não identidade entre tipos. O monismo anómalo como versão não-reducionista da teoria da identidade mente-cérebro. A superveniência do mental. Consequência indesejável: o mental seria um epifenómeno, causalmente irrelevante.


Mente e corpo (1)

25 Novembro 2024, 11:00 Ricardo Santos

O problema mente-corpo. A natureza dos factos mentais e a sua relação com os factos físicos. O dualismo cartesiano: o corpo e a mente são duas substâncias distintas. Os seres humanos como entidades compostas. O argumento de Descartes a favor do dualismo. O acesso privilegiado de cada pessoa aos seus estados mentais. Poderá uma pessoa enganar-se a respeito dos seus próprios estados mentais? A dificuldade principal do dualismo: como explicar a interacção causal entre a mente e o corpo (em ambas as direcções)? A procura de uma teoria materialista, ou fisicista, da mente. O behaviourismo na psicologia (Watson, Skinner): padrões de estímulo e resposta. O behaviourismo na filosofia (Ryle): os factos mentais são factos sobre o comportamento humano. Introdução da noção de disposição: a fragilidade do vidro como tendência ou propensão para partir quando batido. De maneira análoga, os estados mentais seriam disposições para o comportamento; p.e., a raiva seria uma disposição para agir de maneira agressiva contra alguém. Concepção behaviourista das disposições: as disposições de um objecto não são estados do objecto, independentes da sua manifestação e que possam causar essa manifestação; dizer que o vidro se partiu porque era frágil equivale a dizer que o vidro se partiu porque é o tipo de coisa que normalmente se parte quando lhe batem – a fragilidade não é um estado do vidro que, juntamente com a batida, causou a sua quebra. A objecção central ao behaviourismo: os estados mentais são estados independentes capazes de causar o comportamento; as acções intencionais são causadas por certas razões que temos para agir. Para poderem causar as acções, as razões (desejos e crenças) devem ser estados independentes da acção e não podem ser imateriais. A teoria da identidade mente-cérebro (Armstrong): os estados mentais são estados físicos do sistema nervoso central (“a mente é o cérebro”). Cabe à neurociência descobrir, para cada estado ou processo mental, qual é o estado ou processo no cérebro em que ele consiste; assim como a química descobriu que a água é H2O, a neurociência pode descobrir que a dor é a estimulação das fibras-C. Vantagens da teoria da identidade.